A EXPERIÊNCIA DA OBRA ECUMÊNICA DE ESTUDOS - BOCHUM - COM O PROGRAMA DE PARCERIA ACADÊMICA NO BRASIL
Faz uns 30 anos que o Prof. Dr. Achim Schrader e eu pela primeira vez nos encontramos. Naquela ocasião acompanhado de sua equipe, nos procurou na casa paroquial de Dois Irmãos em função de um projeto de pesquisa, a fim de estabelecer os primeiros contatos na região, já que no interior de nossa paróquia deveria se realizar parte do levantamento sociológico por ele planejado. O resultado da pesquisa foi apresentado, em colaboração com Manfredo Berger e Birgit Schrader, no tomo LANDSCHULE IN BRASILIEN BEITRÄGE ZUR SOZIOLOGIE UND SOZIALKUNDE LATEINAMERIKAS, Athenäum Verlag Frankfurt 1972. Em1966 nem imaginamos que seis anos depois, na Diretoria, no Conselho e no Comitê de Seleção da Obra Ecumênica de Estudos colaboraríamos durante muitos anos estreitamente na tarefa de organizar e estruturar, antes de tudo, o Programa de Parceria Acadêmica e, quase simultaneamente, um eficaz programa de emergência nada burocrático para refugiados e jovens acadêmicos ameaçados pelos regimes fortes da época, principalmente na América Latina. Ao dedicar-nos, antes de tudo , às `coisas brasileiras´- através de conferências e publicações como, p. ex., no Anuário - e ao cuidar dos acadêmicos brasileiros que realizavam seus estudos na nossa região, etc., tornamo-nos "companheiros de luta" e tornamo-nos bons amigos, até hoje. É com gratidão e admiração que dedico este artigo ao Prof. Dr. Achim Schrader, pontífice incansável entre a universidade alemã e brasileira.
AS RAÍZES DA OBRA ECUMÊNICA DE ESTUDOS
Foi há 35 anos que ocorreu a fundação da Obra Ecumênica de Estudos (Ökumenisches Studienwerk e. V. Bochum), visando ao apoio a estudantes estrangeiros, inclusive o necessário preparo para os estudos na Alemanha, como também à orientação acadêmica e humana durante o período de estudos, e, mais ainda, ao apoio especial no momento do regresso ao país de origem. No contexto do Departamento de Ajuda Internacional da Igreja Evangélica na Alemanha, a Obra Ecumênica de Estudos [ÖSW] - representa o elemento de apoio ao setor acadêmico.
O Presidente de Igreja, e spiritus rector da Obra Ecumênica de Estudos, D. Hans Thimme, destacou que esta instituição devia a sua existência "às origens criativas da Igreja após 1945". "Cheio de graça, devido à chance para um novo começo", diz Thimme, "esta, naquele momento, estava motivada - antes de tudo entre os adeptos da Igreja Confessante, por motivo das omissões culpáveis dos cristãos na era do Terceiro Reich - ... de sublinhar de maneira adequada a responsabilidade da Igreja não apenas para sua própria continuidade, mas também, e em primeiro lugar, pelo serviço ao mundo, em todos os setores da vida pública, como a Escritura e a Confissão da Igreja mesmo o exigem."
A ÖSW vincula no seu conceito a vasta experiência da Igreja evangélica no campo da educação com o impulso que provém do Programa Eclesiástico de Cooperação Internacional em Favor do Desenvolvimento, inspirado pelo movimento ecumênico. Da Terceira Assembléia Geral do Conselho Ecumênico de Igrejas, no ano de 1961, em Nova Déli sob o lema central "Jesus Cristo a luz do mundo" emergiu a faísca inicial para todo este movimento que logo depois se tornou realidade com a fundação do "Serviço Eclesiástico em favor do Desenvolvimento". Foi a assembléia de Déli que salientou de novo a responsabilidade cristã pelo mundo inteiro e, referindo-se pela primeira vez na história do movimento ecumênico, à miséria dos países pobres no hemisfério sul. Em apelo dirigido aos governos dos povos, a assembléia geral em Déli proclamou a "luta em favor do desenvolvimento do mundo", com o objetivo de "partilhar o dom da civilização com toda a humanidade." Ao mesmo tempo percebeu-se de novo a importância dos "leigos" para a Igreja e sociedade civil e descobriu-se que de fato são os seres humanos que, sob o aspecto da política desenvolvimentista, significam a maior riqueza de um país, e que a Igreja, como também a sociedade civil em geral, carecem de mão de obra altamente qualificada, ou seja, de pessoas que se prontifiquem a contribuir com seus dons em favor do próximo. Recomendou-se às Igrejas apoiar exatamente este tipo de pessoas. Até lá, bolsas de estudo para projetos não-teológicos eram quase desconhecidos. Percebe-se que as raízes da ÖSW encontram-se de fato na ética social, na descoberta da tarefa diacônica global da Igreja.
A PLANIFICAÇÃO DA OBRA ECUMÊNICA DE ESTUDOS
A ÖSW foi projetada de propósito como "irmã gêmea" da ES-Villigst (Evangelisches Studienwerk Villigst). Esta, através de suas ex-bolsistas - por exemplo, com a elaboração do parecer de 1970 - desde logo participou de forma intensa no planejamento conceitual da nova instituição. Desde o começo esta foi concebida em favor de estudantes do "Terceiro Mundo", e isso em analogia ao programa do ES-Villigst que, da parte da Igreja Evangélica, desejava contribuir através da formação qualificada de jovens acadêmicos alemães, beneficiando estudantes de todas as disciplinas, e não apenas da faculdade de Teologia, já que para teólogos, no decurso dos século, sempre havia existido apoio financeiro. Após a assembléia geral de Nova Déli, na Igreja Evangélica na Alemanha surgiu a pergunta: como justificar que recursos financeiros eclesiásticos privilegiassem apenas um grupo de estudantes alemães, devidamente escolhidos. "Aumentam as considerações que sugerem se numa era de conscientização ecumênica mundialmente aprofundada não se deveria assumir, como tarefa especial capaz de abrir nosso horizonte ecumênico, uma promoção de estudantes talentosos e dignos, de todo mundo. (D. Hans Thimme, Leitende Gesichtspunkte, die zur Gründung und Entwicklung des Ökumenischen Studienwerks in Bochum führten. [Ms. 1992]).
Através da colaboração ativa de ex-bolsistas em diretoria, conselho, comitê de seleção e comissão para assuntos de recrutamento de funcionários, a ES-Villigst contribuiu de maneira decisiva ao processo da estruturação e do crescimento da ÖSW. O mais importante destes "pioneiros" entre os ex-bolsistas da ES-Villigst na ÖSW foi o Prof. Dr. Achim Schrader.
Realistas, os fundadores da ÖSW optaram muito cedo pela formação de jovens acadêmicos que em seu país de origem já tinham absolvido curso básico e que depois necessitavam de uma qualificação adicional. "A ÖSW está convencida de que no Terceiro Mundo o processo de independência e o alcance da auto-suficiência já esteja bastante avançado e que a responsabilidade da Igreja nos países altamente industrializados devia, hoje em dia, procurar o apoio aos pós-graduados." (Prof. Dr. Achim Schrader, Die Stipendienpolitik des Ökumenischen Studienwerks, Ansprache anläßlich des Festaktes des ÖSW am 15.12.1972)
O projeto original tinha em vista os estudantes ingressados na RFA, por sua conta, comprovado pelo planejamento original que previu, além da fundação de um "Studienkolleg" (Colégio com cursos propedêuticos para os principiantes entre os estudantes estrangeiros), todo um complexo de instalações, inclusive uma casa de estudantes. Em conformidade com os resultados dos debates sobre um apoio adequado ao desenvolvimento das nações pobres, esta idéia original foi gradativamente ajustada. Apesar de a idéia original, de instalar um Colégio com cursos propedêuticos para os principiantes entre os estudantes estrangeiros, sido mantida, ao mesmo tempo foi planejado um colégio para preparar estudantes estrangeiros graduados nas questões de idioma e metodologia, aspectos essenciais para a posterior realização dum curso de aperfeiçoamento na Alemanha. Eles podiam - argumentou-se - fazer seus estudos básicos no país de origem. Isso evitaria também o perigo da alienação cultural no estrangeiro.
Houve unanimidade de que, antes de tudo, justamente um programa da Igreja deveria considerar a possibilidade de que seus bolsistas absolvessem o curso básico no seu país de origem. Este princípio tornou-se um dos mais importantes critérios do Programa Ecumênico de Estudos (esp), formado pela Obra Diacônica (DDW) e a ÖSW. Já em 1966, um grupo de coordenação tinha proposto à diretoria coordenar todas as atividades da Igreja Evangélica na Alemanha (EKD) que porventura existissem no setor de apoio financeiro aos estudantes, a fim de formar um único programa eclesiástico para estudantes oriundos de países em via de desenvolvimento. Esta recomendação tornou-se realidade quando em 1969 um "Acordo entre a Obra Diacônica em Stuttgart e a Obra Ecumênica de Estudos em Bochum sobre uma cooperação ecumênica no setor da formação relacionada ao desenvolvimento pôde ser ratificado." - OEKUMENE Gemeinschaft einer dienenden Kirche, Theodor Schober, Hermann Kunst, Hans Thimme (Hrsg.), Stuttgart 1983, Heinz Dressel, Ökumenische Zusammenarbeit bei der Ausbildung von Führungskräften - Ökumenisches Studienwerk e.V. Bochum ((ÖSW), S.243)
O PROGRAMA DE PARCERIA ACADÊMICA
A ÖSW resolveu apoiar projetos de pós-graduação, sendo que os candidatos deveriam ser recomendados por instituições parceiras antes criteriosamente selecionadas. "Vinculamo-nos a determinados parceiros ... através de convênios, o que se explica não apenas pelo fato de que os escassos meios financeiros disponíveis deverão ser aplicados economicamente, mas também para assim concretizar a solidariedade das Igrejas junto às instituições do Terceiro Mundo. Neste contexto está se colocando ênfase a tais parceiros que sejam universidades ou instituições do ensino superior, já que ficou comprovado que nossa idéia original, de dar apoio também a projetos em prol do desenvolvimento, através de específicas medidas pedagógicas, não ficou operável de forma mais ampla. A causa para isso encontra-se, antes de tudo, no fato de que os projetos em prol do desenvolvimento, mantidos pelo Estado ou também pela Igreja, são muito imediatistas para que pudessem ser calculados ou aguardados os relativamente longos períodos de maturação nos processos de formação e, também, porque a ideologia dos counterparts lá predominantes, em última análise, até impede uma formação adequada dos counterparts por nós apoiados." (Achim Schrader, Die Stipendienpolitik dês Ökumenischen Studienwerks)
Desde o início, a opção da ÖSW em favor do apoio aos acadêmicos altamente qualificados não careceu de uma forte oposição, inclusive dentro da própria Igreja. A Congregação Evangélica de Estudantes (ESG) já havia agitado durante o período de planejamento da ÖSW, empregando aquele jargão típico da juventude dos anos "68" contra este novo projeto. Na ocasião do lançamento da pedra angular do campus de Bochum (2.12.68), a ESG assumiu um papel bem característico do clima espiritual daquela época quando, em companhia do DCE e do SDS (Associação Estudantil Socialista Alemã), acusou a ÖSW como entidade "não-democrática, paternalista e neocolonialista". Nesta ocasião, o idealizador e presidente da ÖSW, o Presidente de Igreja D. Thimme, sem hesitar havia concedido o microfone aos jovens provocadores, a fim de que pudessem expressar seu confuso assunto em praça pública. Triunfou o velho princípio liberal: "Embora que não compartilhe sua opinião, vou fazer tudo que está dentro de meu alcance a fim de que possam expressá-la livremente." Cerca de 20 organizações - entre eles a Congregação Evangélica de Estudantes (ESG), a Associação Estudantil Socialista Alemã (SDS), o World University Service e a Associação de Organizações Estudantis Estrangeiras - lançaram na imprensa uma declaração acusando a ÖSW de `confessionalista´ ou seja `confessional´. A Associação dos Diretores, em Munique, (21.-24.5.70) lamentava que a ÖSW concede bolsas apenas a estrangeiros graduados que em seu país de origem já teriam começado um curso acadêmico (pós-graduados). (Vide "Clausthaler Hefte" Ausländerfragen, Caderno n. 8, 15.9.70, BOCHUM: ÖKUMENISCHES STUDIENKOLLEG - STELLUNGNAHMEN) Apesar desta polêmica, em 1.4.70, Dr. Peter Riecken foi incumbido da organização do Colégio Propedêutico (Studienkolleg) que em outubro de 1971/72 iniciou suas atividades, inclusive o primeiro curso de alemão para estudantes estrangeiros.
Naquele momento ainda não havia na ÖSW um funcionário responsável pelo programa de bolsas de estudo. Quando o autor destas linhas iniciou seu trabalho na ÖSW, em janeiro de 1972, sua tarefa mais urgente foi a de pôr em prática todas aquelas considerações tomadas anteriormente em relação a um viável programa de bolsas. No que se refere ao caráter do programa de bolsas, os fundadores da ÖSW, durante o período de planejamento e organização entre 1964 - 1971, tinham tomado a decisão de concentrar-se no apoio de jovens líderes provindos dos `países do sul´, cujas tarefas futuras exigiam estudos adicionais para aperfeiçoar seus conhecimentos científicos e profissionais. Não apenas levando em conta a assimilação de qualificações e conhecimentos aplicáveis, ainda não disponíveis nos respectivos países de origem dos bolsistas ecumênicos, durante seus estudos adicionais estes deviam ser motivados, como também deveriam adquirir uma atitude de reflexão crítica, que lhes seria útil no melhor entendimento dos problemas de sua profissão, de seu país e dos problemas dos países no hemisfério sul, e na procura por alternativas praticáveis em seu contexto específico. Pelo menos durante a década 70 o Programa de Parceria Acadêmica, concebido nesta filosofia, tornou-se o pilar de todo o programa. Prof. Schrader foi o inspirador principal deste programa.
ÍNDIA
Em fins de 1970, P. Hermann Jäger, pessoa responsável pela seção de bolsas da Obra Diacônica, Stuttgart (DDW), tinha percorrido a Índia, país que, após seu retorno, recomendou à ÖSW como lugar de excelência para aplicar o Programa de Parceria Acadêmica, justificando esta escolha com os laços tradicionais entre a Índia e as Igrejas da Alemanha, que há séculos haviam contribuído de maneira significante ao sistema educacional daquele país. Entre os cerca de 3.500 colégios na Índia, encontravam-se 180 "Christian Colleges". Estes tinham se associado na ALL-INDIA ASSOCIATION FOR CHRISTIAN HIGHER EDUCATION (AIACHE), dirigida pelo secretário geral, Padre Mathias SJ, pessoa recomendável para conselheiro e parceiro de destaque na execução do Programa de Parceria Acadêmica. Os colégios cristãos careciam de docentes bem qualificados.
A ÖSW empenhou-se desde fins de 1971, visando a uma parceria acadêmica com AIACHE, que tinha recebido uma oferta de 5 - 10 bolsas para os 5 anos subseqüentes. Em 19.6.72, o Comitê de Seleção aprovou os primeiros candidatos a bolsa, os quais chegaram no campus de Bochum no começo do semestre de inverno de 1972/73, entre eles P. Joy, B. R. Venkataram e S. Manickam. Os colégios escolhidos nos marcos do Programa de Parceria Acadêmica, na Índia, eram o Lucknow Christian College, o Ewing Christian College (Allahabad), o Mar Thoma Christian College (Tiruvalla) e, mais tarde, o prestigiado Madras Christian College (Tambaram).
ZÂMBIA
Na fase experimental do Programa de Parceria Acadêmica, ratificou-se um "Formal Agreement" com o Ministry of Education, que teve em vista uma colaboração no setor da educação acadêmica. Em 1972 a ÖSW aprovou 14 bolsistas; 3 deles da área de Educação, da Engenharia Química e da Economia no contexto do Desenvolvimento; 2 da área de Construção Civil, 1 da área da Arquitetura, 1 da área da Engenharia Mecânica. 6 desses bolsistas realizaram seu curso de especialização na RFA, enquanto os outros estudaram ou in loco, ou no Reino Unido. Não demorou muito até que este programa morreu, mas ressuscitou em outra forma em função do diálogo com o CCZ, de forma que, até o começo dos anos 90, nada menos que outros 22 estudantes das áreas Biologia, Química, Física, Matemática, Educação, Engenharia, Telecomunicação, Arquitetura, Agronomia e Sociologia puderam participar do programa, cerca de dois terços deles freqüentando cursos de especialização na própria África. UNIVERSITY OF BOTSWANA, LESOTHO AND SWAZILAND - UBLS
Alguns anos mais tarde, o Programa de Parceria Acadêmica na África foi estendido à University of Botswana, Lesotho and Swaziland (UBLS), da qual no decurso dos anos emergiram três universidades autônomas, a National University of Lesotho (NUL), a University of Botswana e a University of Swaziland. A ÖSW apoiou os projetos de estudo de cinco bolsistas de Gaborone nas áreas de Matemática, Física, Literatura Inglesa, Filosofia e Teologia (Obed N. O. Kealotswe), na Grã-Bretanha e no Quênia. Sete membros do corpo docente de Roma (NUL) tornaram-se bolsistas da ÖSW e faziam cursos de pós-graduação, em Nairobi e Dublin, em Literatura Africana, Educação, Pedagogia, Estudos Sociais, Estudos Jurídicos, Building Economics e Desenvolvimento de Sistemas. Quatro membros da equipe da University of Swaziland gozaram do apoio da ÖSW para freqüentar cursos adicionais nas áreas de Geografia, Relações Internacionais, Teologia e Eletrônica, na RFA ou no Reino Unido, respectivamente.
AMÉRICA DO SUL
Quando as atividades do programa da ÖSW começaram, já havia excelentes contatos com instituições latino-americanas, graças às atividades preparatórias do Conselheiro de Igreja Dr. Reinhart Müller, P. Jens Timm e a prestigiosa colaboração do Prof. Dr. Achim Schrader, a quem logo incumbiu-se os cargos de presidente do Conselho e de presidente do Comitê de Seleção; Dr. Reinhart Müller, anteriormente Pároco da Comunidade Alemã da Cidade do México, estabeleceu valiosos contatos junto às universidades hispanófonas (Universidad del Valle, Cali e Universidad Austral, Valdivia).
UNIVERSIDAD DEL VALLE CALI/COLUMBIA
Na primeira década das atividades da ÖSW - com a ajuda do Prof. Kümmel e do P. Honecker - ambos na cidade de Cali - e devido à colaboração efetiva de Dr. Achim Schrader - pôde-se fazer os primeiros passos que levariam à organização do Programa de Parceria Acadêmica em colaboração com a Universidad del Valle. Tudo isso aconteceu justamente em momento onde as autoridades desta universidade pensavam em abandonar a tradicional prática de enviar seus estudantes aos cursos de pós-graduação nos Estados Unidos, simplesmente fazendo uso da assistência oferecida ou pela Rockefeller - ou pela Fundação Ford. A ÖSW apoiou os seguintes docentes de Cali: Jaime Millan, Diego Roldán Luna, César Augusto Garcia Cano, Pedro Antonio Prieto Pulido, Alvaro Campo Cabal e Elsa, Graciela Valderama, Fabriciano Diaz, Otto Vergara, Nelson Porras e Orlando Escobar Zuñiga.
UNIVERSIDAD AUSTRAL VALDIVIA /CHILE
Por incumbência do Programa Ecumênico de Bolsas (esp), em 1971, P. Jens Timm, da Obra Diacônica Stuttgart, visitou instituições em Venezuela, Columbia, Peru, Chile, Argentina e Brasil como também começou negociações com a Universidad Austral em Valdivia. Foram os primeiros bolsistas de Valdivia: Edith Berger e Pedro Fernández de la Reguera (Matemática); Diner Moraga (Física) e sua esposa Feliza (Filosofia); Andrés Contreras e Fernando Medel Salamanca (Estudos Agrários); Jorge Sommerhoff (Sonóloga); Karin Schoebitz (Química); Frederick Ahumada e Oscar Araya (Veterinária); Jorge Paul Villaseca Ribbeck (Eletroacústica).
BRASIL - PAÍS DE ÊNFASE PRINCIPAL
Na fase de planificação da ÖSW, uma comissão ad hoc havia elaborado um "catálogo de países" que foi de grande utilidade no início do trabalho. Com o decorrer dos anos, esse instrumento ficou desafiado e antiquado diante do desenvolvimento geral. Neste remoto plano de ação, entre cujos autores também se encontra Dr. Achim Schrader, o Brasil figura entre os países de "primeira prioridade". A comissão tinha pensado na disparidade social deste país, que se refletia também no setor da educação. Ficou expressamente salientado que somente universidades e projetos no Sul e no Norte ou Nordeste podiam ser apoiados. No Sul, onde se podia contar com a colaboração da IECLB e a profunda experiência de Dr. Schrader, rapidamente conseguiu-se cooperação com as universidades UFRGS, UFSC e com o projeto em prol do desenvolvimento FIDENE - Fundação de Integração, Desenvolvimento e Educação no Noroeste do Estado. No Nordeste, concretamente junto à UFPe, perpassam dois anos até que surgiram os primeiros bolsistas. Em cooperação com estas instituições de educação superior pôde-se fazer as primeiras experiências com o Programa de Parceria Acadêmica.
O primeiro secretário do programa de bolsa - que, depois de 15 anos de serviço pastoral, estava bem entrosado e bem a par da situação no continente latino-americano - ficou bastante satisfeito que a diretoria, seguindo uma recomendação do comitê ad hoc, decidiu começar com a organização de programas justamente neste continente. Novato no contexto da assistência educacional ecumênica, para ele, sem dúvida alguma, a escolha de Brasil, Chile e Colômbia, como campo de ação, tornou a tarefa mais fácil do que teria sido o caso com um eventual projeto piloto na Indonésia ou em Malawi.
FIDENE
1971, após uma visita em Ijuí, Dr. Schrader caracterizou a Fundação de Integração, Desenvolvimento e Educação no Noroeste do Estado (FIDENE), dirigida pelo capuchinho Mário Osório Marques, como "o centro espiritual da maior e mais efetiva cooperativa no interior da região sul do Brasil. Trata-se duma cooperativa de produção agrícola. Nos anos que precederam ao golpe de 1964, em cooperação com uma instituição para a formação de professores de segundo grau, ou seja, a Faculdade de Filosofia do lugar, tentou introduzir um programa de desenvolvimento comunitário. Ao desenvolver este programa, fundou-se nos subúrbios das pequenas cidades agrárias associações de vizinhos, e nos lugarejos rurais como nas vilas juntaram-se os sócios em círculos de discussão e trabalho. Neste contexto, toda uma porção de projetos surgia das próprias bases que também os levou ao nível de realizações através da cooperativa. Não podia faltar que tudo isso, de momento, criava um clima de desconfiança e suspeita do lado do governo militar, assim que, numa visita em 1968, observei que um número de líderes, cabeças do movimento, ou se encontravam presos ou privados da venia legendi. Neste meio tempo, a situação melhorou devido ao fato de que a cooperativa se tornou empresa importante de produção de trigo que há dois anos se estende numa região do campo tradicionalmente pecuário. O governo concedeu também voltou a conceder à FIDENE todas as liberdades de atuação. Atualmente organizam-se com regularidade, nas diversas filiais e na própria sede, cursos para agricultores e operários, que de fato não se limitam a assuntos ligados ao cooperativismo, mas que além disso pretendem abrir à população rural uma visão mais global deste mundo cada vez mais complexo. A Fundação mantém um instituto de pesquisa e planejamento que não apenas lida com demandas da cooperativa (p. ex., sobre a construção duma linha lateral da estrada de ferro), mas, de modo crescente, também com demandas do governo e de organizações, oferecendo ajuda ao desenvolvimento. No setor pedagógico da Fundação, no decurso do tempo, foram introduzidos outros cursos além daqueles que levam ao magistério; prepara-se os estudantes para sua responsabilidade pelos problemas da região do interior." (Prof. Dr. Achim Schrader REISEBERICHT Lateinamerika 1971)
A boa relação entre os parceiros ÖSW e FIDENE, de início, foi entendida como colaboração com um projeto em prol do desenvolvimento, que, antes de tudo, procurava formar líderes em todos os níveis, os quais - também como docentes - poderiam colaborar em projetos lidando com o planejamento, ou assistir à administração pública, como conselheiros competentes. Originalmente fizeram parte do convênio com a ÖSW as Faculdades de Filosofia e Ciências Econômicas, os institutos de Educação Permanente, Pesquisa e Planejamento como também de Documentação. Em 1972 o Comitê de Seleção concedeu ad hoc 5 bolsas in loco, e, durante as 2 décadas seguintes - neste meio tempo, da FIDENE havia emergida a universidade regional UNIJUÍ -, mais do que 30 bolsas in loco como na França e na República Federal da Alemanha, nas seguintes áreas acadêmicas:
Ciências Agrárias (3) Administração de Empresas (4); Bioquímica (1); Biologia (1); Ciência dos Solos (1); Botânica (1); Química (2); Community Development (1); Nutrição (1); Pedagogia (1); Geografia (2); História (1); Informática (1); Tecnologia de Alimentos (1); Lingüística (2); Matemática (1); Ecologia de Conservação do Ambiente (1); Filologia (1); Filosofia (1); Física (1); Ciências Políticas (2); Psiquiatria (1); Psicologia (1); Psicopatologia (1); Ciências de Planejamento Regional (1); Sociologia (2); Estágio em Administração (1); Economia (2); Teoria da Economia (1); Ciências Econômicas (1); demais cursos. Os bolsistas de então, Adelar Francisco Baggio, Telmo Rudi Frantz e Walter Frantz exerceram consecutivamente o cargo de reitor da UNIJUÍ. Na segunda parte da década dos anos 90, Dr. Telmo Rudi Frantz foi nomeado Secretário de Ciência e Tecnologia do Estado do Rio Grande do Sul.
UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL - UFRGS
O programa de pós-graduação, organizado em cooperação com universidades brasileiras, considerado preeminente pela diretoria da ÖSW, começou através da cooperação da ÖSW com a UFRGS. Visando a este programa, em 1971 o Prof. Schrader informara que cogitava-se no Brasil a idéia de se livrar da prática usual de importar docentes universitários de fora, e de mandar acadêmicos ao exterior a fim de lá freqüentarem cursos de aperfeiçoamento. Esta nova orientação estaria sendo apoiada também pela oposição brasileira. O governo teria formado cinco comissões regionais incumbidas do reconhecimento de cursos de pós-graduação nas universidades apropriadas do país. Além de Rio de Janeiro, São Paulo e Belo Horizonte, cogitava-se Recife, no Nordeste, e Porto Alegre, no Sul, para centros de pós-graduação. Enquanto que, no contexto dos programas de desenvolvimento executados pela SUDENE, o Recife repetidas vezes teria recebido meios financeiros para poder instalar cursos de pós-graduação, o Sul teria sido desconsiderado. Por isso, recomendou-se à ÖSW dar atenção especial à organização de cursos de pós-graduação no Sul. Em Porto Alegre, a UFRGS mostrara-se interessada em instalar cursos de pós-graduação na área das Ciências Sociais, entre outras.
"No que se refere às Ciências Sociais, aconteceram diálogos com o chefe do departamento de Ciências Sociais, Prof. Luis Alberto Cibils. Os preparativos ligados à organização de cursos de pós-graduação estão quase terminados. Constata-se, porém, tremenda falta de professores universitários. Cogita-se a idéia de convidar temporariamente docentes doutores, da Alemanha, para professores universitários. Mas isso não pode resolver o problema definitivamente, já que objetivo deste programa de implantação de cursos de pós-graduação é livrar-se da esmagadora influência estrangeira. Desta maneira, torna-se imprescindível preparar, imediatamente e a curto prazo, o potencial disponível para as futuras funções do corpo docente da universidade, através de estudos adicionais no estrangeiro. Se, na qualidade de Obra Ecumênica de Estudos, podermos apoiar universidades brasileiras nesta situação de emergência, podemos desta forma dar contribuição eficaz ao processo de desenvolvimento, que de maneira toda especial salienta o desempenho da Igreja, e que também encontra extraordinário reconhecimento público." (Achim Schrader REISEBERICHT Lateinamerika 1971)
Após - em reunião de 23.11.71 do Comitê de Bolsas - ser aprovada em termos gerais a solicitação de estabelecer uma cooperação com a UFRGS e de UFSC por um prazo de 3 - 4 anos, foram aprovados vários candidatos da UFRGS, já antes de ser ratificado um convênio formal sobre uma parceria: Maria Susana Soares Arosa, José Vicente Tavares dos Santos e Henrique Richter (Ciências Sociais); José António Tavares Giusiti e António Carlos Pojo do Rego (Políticas Públicas); Sérgio Texeira Alves (Antropologia); Regina Helena Souza de Araújo Ribeiro (Administração Educacional), sobretudo para fins de pós-graduação etc., na UNAM, na Cidade do México. Além disso, foi apoiado Manfredo Berger, em Bielefeld/RFA (2.71-2.73). A publicação póstuma de sua dissertação - Educação e Dependência - DIFEL 1976 (revisão técnica por Berlindes Astrid Küchemann - outra ex-bolsista da ÖSW) - pôdee ser realizada por mérito especial do Prof. Schrader. No decurso dos anos, toda uma turma de candidatos provenientes da UFRGS foi apoiada, para fins de especialização nas áreas: Arquitetura (1); Geografia (1); Filosofia (1); História (3); Ciências Econômicas (3); Estatística (1); Informática (1); antes de tudo, porém, das áreas das Ciências Sociais/Sociologia (16), e Ciências Políticas (11).
UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA EM FLORIANÓPOLIS - UFSC
Por ocasião de visita feita à Conferência de Reitores da Alemanha Ocidental, o reitor da UFSC, Ferreira Lima, visitou também a ÖSW Bochum. Em 1973, ratificou-se uma parceria formal, da qual usufruiram os bolsistas apoiados pela ÖSW: Dirceu Mattozo (Processamento Eletrônico de Datas), Louis Roberto Westphal (Administração Pública e Sociologia), Arno Bollmann e Nelson Diógenes do Vale (Engenharia).
UNIVERSIDADE FEDERAL DE ESPÍRITO SANTO - UFES
Em 1975, o autor realizou uma visita a Vitória/Espírito Santo e conferenciou com o reitor Dr. Manuel Ceciliano Salles de Almeida, a Prof.a Euzi Morães (Coordenadora do Programa de Pós-Graduação), Prof. Claude Labrunie e Prof.a Sibila Baeske. Na universidade havia 6.500 estudantes inscritos, atendidos por 727 professores ordinários e extraordinários, dos quais apenas 35,6 % possuíam o certificado de conclusão do curso de graduação; 40 % haviam freqüentado curso de especialização; 24,4 % possuíam o título de mestre ou doutor. A partir de 1968 foi oferecido um bom programa visando à especialização do corpo docente, apoiando os professores que desejavam adquirir melhor qualificação através da participação em cursos de mestrado no próprio país ou de programas de doutoramento, antes de tudo no estrangeiro Devido a atrasos ligados a problemas de caráter político, como a substituição de reitores, a flutuação na administração da UFES, e também certas discussões internas na ÖSW, só a partir de 1979/80 surgiram, ao todo, 11 candidatos de Vitória, entre eles Antonio Carlos Ortega (Psicologia) e Conceição Santos Silva (Biologia) aos quais se concedeu bolsas de estudo da ÖSW nas áreas de Ciências Agrárias, Hidrogeologia, Pedagogia, Planejamento Regional, Psicopatologia, Matemática, Filosofia e Filologia. Aquilo que o Prof. Dr. Achim Schrader quase 10 anos antes tinha constatado, refletiu-se também em Espírito Santo: "Nesta altura ainda não é possível declarar que a liberdade de cátedra tenha sido recuperada. Além disso, nota-se que um número elevado de professores universitários ainda se encontra no estado de aposentadoria decretada e, alguns deles, punidos com a cassação da venia legendi. Por outro lado, nem a oposição nega que o crescimento econômico dos últimos dois anos beneficiará a infra-estrutura do país e, com isso, a longo prazo também as camadas mais modestas da população. Progresso econômico e liberdade intelectual parecem necessariamente excluir-se na presente fase de desenvolvimento. Se, por outro lado, o país, nos próximos anos, não sofrer um enpobrecimento intelectual, nós que somos cidadãos de países livres, estamos conclamados a ajudar. Por um lado, esta ajuda poderia manifestar-se no apoio a cientistas brasileiros (da mesma forma, a argentinos, venezuelanos, bolivianos e colombianos), a fim de que e possam freqüentar cursos de especialização na Europa. Pode-se esperar que a situação melhore; os primeiros sinais já podem ser notados. Mas o processo de liberalização vai se estender por muito tempo e se não nos engajarmos justamente neste momento, vão se criar muitos obstáculos para muitos talentos." (Achim Schrader, REISEBERICHT Lateinamerika 1971)
UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO - UFPE
Em seu pronunciamento, o reitor Prof. Paulo Frederico do Rego Maciel destacou haver influência norte-americana esmagadora no Recife, e que, por isso, a presença alemã atualmente seria desejável, tanto mais, quanto através da transferência do Prof. Vamireh Chacon à Universidade de Brasília teria ocorrido uma enorme lacuna. Teria extraordinário interesse em poder mandar jovens acadêmicos da área da história à RFA, a fim de que pudessem se entrosar, antes de tudo, na metodologia da ciência de história alemã. A pergunta do nutricionista Prof. Dr. Nelson Chaves sobre a viabilidade de incluir no programa também uma disciplina da área das Ciências Naturais tinha que ser respondido de forma negativa, devido a decisões anteriormente tomadas pela diretoria da ÖSW. Com o Prof. Armando Souto Maior - Departamento de História - chegou-se a acordos junto aos detalhes da cooperação. Os representantes do Departamento de História, que começaram com seus respectivos cursos de especialização em Bielefeld e Nürnberg/Erlangen foram Maria do Socorro Ferraz Barbosa, Leonardo Manoel Carneiro da Cunha Holanda, Terêsa Cahú Brotherhood de Oliveira, Luiz do Nascimento, Maria da Guia Santos, Ana Maria Barros dos Santos. Três deles alcançaram o objetivo de fazer o doutorado na própria RFA, outra, mais tarde, na USP em São Paulo.
O CONSELHO
Após o departamento de bolsas da ÖSW ter concluído os trabalhos de planejamento e antes que a diretoria tivesse ratificado convênio de parceria, um estudo de viabilidade de convênio devia ser realizado. Não era recomendável, porém, que se submetesse um processo de convênio ao critério de representantes estudantis, presentes no Comitê de Seleção (ironicamente fora o próprio Prof. Dr. Achim Schrader que, em 1971, conseguira o direito de voto deles nos grêmios da ÖSW!). Obviamente como resultado de um "mandato imperativo", muitas vezes votavam em bloco, como também os representantes da ESG (Congregação Evangélica de Estudantes) mal dispunham de conhecimentos realistas e mais profundos, todavia necessário para a tomada de decisões. Da diretoria, ao solicitar decisão a respeito de determinado convênio de parceria, não se devia exigir demais; por isso o Prof. Schrader fez a proposta de formar um Comitê da diretoria, ou melhor um Conselho para o departamento de bolsas, que não seja tão numeroso e inflexível como o Comitê de Seleção, porém, com a necessária competência com respeito aos assuntos a serem tratados. Esse conselho foi incumbido da tarefa de aconselhar de modo permanente o departamento de bolsas em assuntos de planejamento e execução de convênios de parceria, e, também, de preparar as decisões a serem tomadas pela diretoria.
A POLEMICA SOBRE O PROGRAMA DE PARCERIA ACADÊMICA
Dentro da Igreja não faltou forte resistência contra a formação de acadêmicos altamente qualificados. No Comitê de Seleção formou-se, em volta do representante da Conferência dos Pastores para Estudantes, uma aliança pouco santa com demais adversários do Programa de Parceria Acadêmica, o qual fortemente criticaram ou até rejeitaram por causa dos altos custos envolvidos devido aos longos prazos de estudos. Uma exceção louvável entre os representantes da ESG fez Christian Wendt, natural do Brasil, possuindo assim uma imagem realista dum "país em via ao desenvolvimento", terminologia entre os "burocratas de desenvolvimento" naqueles dias. Também do DDW sempre emergia a opinião de que universidades públicas não deveriam ser os parceiros genuínos, nem as bolsas para projetos de pós-graduação deveriam dar o campo de atuação da Igreja. Dar prioridade ao programa de pós-graduação dentro do projeto da ÖSW significaria ignorar a realidade dos países em via ao desenvolvimento. Enquanto a finalidade do Programa de Parceria Acadêmica seria a celebração de convênios com universidades públicas e a qualificação de professores acadêmicos (doutorado), este não poderia ser reconhecido como tarefa da Igreja alemã. Os representantes do programa do Departamento de Ajuda Internacional da Igreja Evangélica da Alemanha (KED) apoiavam jovens estudantes estrangeiros que haviam ingressado na RFA por conta própria: exilados e necessitados. Atuavam neste sentido no Comitê de Seleção durante muitos anos. No entanto, o Programa de Parceria Acadêmica foi o único programa que realmente combinava com a ÖSW, na forma em que esta foi criada. Jamais alguém havia articulado qualquer alternativa aceitável a este programa. Não podia ter dúvidas de que a ÖSW, ao médio prazo, poderia existir só com o Programa de Parceria Acadêmica, pois só este poderia garantir a estabilidade e o equilíbrio do programa, sem os quais não teria sido possível de planejar e dirigir as atividades da ÖSW. O Programa de Parceria Acadêmica certamente não foi pior do que o programa de apoio aos estudantes que tinham entrado na RFA espontaneamente, ao próprio risco deles, programa com que o DDW havia convivido sem problemas durante muitos anos. Pode-se, porém, perguntar, qual foi o paradeiro dos bolsistas deles. Os resultados que prometia o Programa de Parceria Acadêmica eram bastante melhores. Não obstante, o Programa de Parceria Acadêmica, cuja organização por boas razões ficou determinada na fase do planejamento da Obra Ecumênica, viu-se permanentemente em discussão porque alegavam ser "caro demais" e que daria apoio aos "privilegiados", e isto particularmente para latino-americanos, e porque entre os candidatos latino-americanos haveria "demais católicos" (aliás fato que devia ter sido previsível desde o planejamento do programa). Em vista da aversão - que se notava inclusive dentro dos próprios grêmios da Obra - contra a policy da ÖSW, foi lícito duvidar se o programa de bolsas era de fato visto como ajuda ao desenvolvimento e apoio à educação, ou talvez como instrumento político da própria Igreja. Era evidente que um apoio à educação que seja realmente relevante para o desenvolvimento devia ser prestado com maior entusiasmo e menos dirigismo e paternalismo, como também num espírito mais aberto junto aos não-protestantes e não-cristãos. Não devia haver tantos escrúpulos nutridos por um pessimismo ocidental mórbido; o que se precisava era muito mais coragem, acompanhada pelo reconhecimento de que não seja lícito que uma responsável ajuda ao desenvolvimento parasse perante fronteiras da confissão ou da religião.
DESEQUILÍBRIO CONFESSIONAL E CONTINENTAL
O engajamento da ÖSW na América Latina e especificamente no Brasil, que no começo dos anos 70 foi decidido pela diretoria, significava per se, que também bolsistas católicos podiam, com peso, fazer parte do programa, fato que a estatística de confissões comprovou. Ao número de católicos anteriormente "previsto", devido a situação política no Brasil e Chile nos anos 70 agregou-se elevado número de bolsistas católicos integrados no Programa da ÖSW para refugiados. Irritado pela elevada proporção de católicos entre os bolsistas, em 1974, alguns representantes de Igrejas regionais expressaram suas preocupações junto à "Estatística de Países e Confissões". Diante disso, a diretoria deliberou ser necessário uma correção do atual desequilíbrio na composição continental e confessional de bolsistas. Muita gente entendia o engajamento da Igreja na sociedade como serviço prestado apenas à "sociedade cristã", melhor - só à "sociedade de confissão evangélica". Desta forma a diretoria salientou "que a ÖSW não pensava apenas na sociedade, mas deveria também atuar em prol da Igreja." Na primavera de 1975 o tema do vínculo religioso ou confessional dos bolsistas foi posto na agenda de novo, após que parte dos membros da diretoria se queixara da amplitude ecumênica, ou, assim outra parte, da suposta estreiteza do programa de bolsas. Desta maneira discutiu-se enfaticamente a pergunta como devia ser interpretado o termo "ecumênico" no contexto da seleção de bolsistas da ÖSW. A questão da formação de candidatos católicos devia ser repensado. Dentro do programa, não-cristãos deviam ser melhor representados do que os católicos, já que as chances dos não-cristãos para ganhar uma bolsa seriam mais escassas. De maneira bastante sibilina, a diretoria propôs as seguintes proporções "como regulamento geral": 5 - 15 % de católicos, não mais do que 25 % de não-cristãos. Dr. Schrader foi incumbido com a tarefa de ventilar a possibilidade de co-responsabilizar Misereor com referência ao financiamento dos bolsistas católicos. Em relatório do autor desta ao Comitê de Seleção, de fins de 1975, o assunto foi novamente mencionado: Na ocasião duma consulta junto ao Serviço Acadêmico Católico para Estrangeiros (KAAD) na cidade de Aachen, ficaram evidentes os objetivos diferentes de ambas as instituições: o primeiro critério do programa do KAAD é o aspecto caritativo, todavia ligado a aspectos políticos em prol do desenvolvimento. A prática da ÖSW de, intencionalmente, convidar estudantes do além-mar para absolverem estudos na RFA distingue-se fundamentalmente das intenções do KAAD que até então convidou somente pouquíssimos bolsistas à Alemanha. O programa da ÖSW, que dá ênfase principal ao aspecto de promoção do desenvolvimento, visa ao apoio de acadêmicos convidados à Alemanha a fim de realizar um projeto de pós-graduação. O programa da ÖSW tem que ser projetado de antemão, a longo prazo. O apoio a estudantes estrangeiros que já se encontravam na RFA estaria ignorando estes objetivos. No diálogo com o KAAD ficou evidente que uma participação - financeira ou institucional - no programa da ÖSW não era possível. De fato, o diálogo não tinha nenhum efeito.
No início de 1976, o debate sobre o aspecto do ecumenismo foi recomeçado no Conselho e chegou a uma definição satisfatória do termo "ecumenismo", ao lembrar-se da manifestação da diretoria do mês de março de 1975: "+Ecumenismo* significa não apenas +Conselho Mundial de Igrejas*, tampouco +somente cristãos*." Em carta do presidente (20.3.75) podia-se ler que a proporção dos católicos "não deveria exceder cerca de 10 %." Neste meio tempo porém, existia também uma manifestação da parte do Comitê de Seleção (18.11.7), dizendo: "Exige-se da diretoria da ÖSW que seja possível também no futuro dar apoio a um numero razoável de aptos candidatos católicos." Foi uma carta (11.12.74) do National Council of Churches, em Quênia, dirigida à diretoria, que neste contexto ganhou importância: "Our basic approach seeks to consider individuals regardless of their background. The Committee tries to assist Catholics as well as Protestants." No NCCK, instituição parceira da ÖSW em Quênia, a Igreja Católica-Romana - cujo membro era também o presidente Julius K. Nyerere - fez parte do Conselho Nacional de Igrejas. Deste modo não era de estranhar que de lá chegaram protestos contra qualquer tratamento diferente de protestantes e católicos no Programa Ecumênico de Bolsas (esp).
Atendendo a uma solicitação de vários membros do Conselho, em fevereiro de 1988 um tópico obviamente bastante grave ocupou espaço na pauta: "A questão da admissão de adeptos de religiões não-cristãs no programa da ÖSW". Aconteceu que, naquele período, os parceiros da ÖSW no contexto do Programa de Parceria Acadêmica eram predominantemente instituições de educação superior na Ásia, mantidos pelas Igrejas. Nesta região as Igrejas eram minoria perante as respectivas religiões mundiais. Isso exigia das Igrejas e de suas instituições educacionais atitude política sábia e tolerante na Índia (Hinduísmo e Islã), Indonésia (Islã e Budismo), Tailândia (Budismo) e na Coréia (Confucionismo).
A estatística comprova que a percentagem dos respectivos bolsistas da ÖSW, dentro do programa global oscilava nos anos de 1975 - 1981 entre 6,5%, e 13,30%, nos anos de 1982 - 1987. Em 1988, a percentagem era de 10% exatamente; aliás, percentagem que combinava completamente com os princípios defendidos e aplicados por outros programas e organizações da Igreja como Pão para o Mundo, Serviços de Além-Mar (DÜ), Central Evangélica de Ajuda ao Desenvolvimento (EZE), KED e EMW, que fazem parte da Associação de Serviços da Igreja em prol do Desenvolvimento - Arbeitsgemeinschaft Kirchlicher Entwicklungsdienst (AGKED).
Um painel estatístico sobre a distribuição de crenças, do mês de janeiro de 1988, revelou: Tinha 1 bolsista adepto do Islã (1,11 %), 6 do Budismo (6,67%), 7 das "religiões mundiais" - menos o Cristianismo - (7,78%); 2 "sem religião" (2,22%), o que significa que entre os bolsistas tinha exatamente 9 não-cristãos (10,00%). Tinha 11 bolsistas membros da Igreja Católica-Romana (12,22%), 70 bolsistas eram "outros cristãos" (77,78%), totalizando 81 cristãos (90,00%) entre 91 bolsistas (100,00%) .
QUEIXA DEVIDO A ELEVADA QUOTA DE BRASILEIROS
Diante da queixa constante de que houvera "quota exagerada" de brasileiros dentro do programa de bolsas da ÖSW, lembrou-se novamente que os críticos teriam olvidado que a causa da alegada "quota elevada de brasileiros e latino-americanos" deviam-se a fatores tão extraordinários como os da repressão contra organizações estudantis, e do golpe no Chile. Por motivos humanitários, a diretoria tinha concedido à organização de assistência aos refugiados das Igrejas protestantes na França (CIMADE) uma quota de 10 bolsas da ÖSW para exilados e tampouco podia fechar-se, quando lhe chegavam gritos de emergência urgentes, diretamente do Brasil, e assim, sem distinguir entre pessoas, credos religiosos, nacionalidades ou da respectiva filiação política, aceitou toda uma turma de refugiados. Entre os refugiados chilenos tinha - por motivos conhecidos - também um número de brasileiros. Aliás, em fins dos anos 80, os mesmos grêmios que antes haviam polemizado contra a "representação excedente dos brasileiros" criticavam que a América Latina estaria "sub-representada". Nota-se bem que as instituições não dispõem de memória! Em maio de 1990, dos 104 bolsistas, 41 eram da África, 57 da Ásia e 6 da América Latina (2 deles brasileiros).
QUERELAS IDEOLÓGICAS
Nos anos 70, tampouco faltavam ataques por motivos ideológicos provenientes do lado marxista contra a colaboração da ÖSW com universidades públicas no Brasil (e Chile!), apesar de que o autor destas sempre insistira que as atividades da ÖSW não deveriam ser entendidas como sinal da solidariedade com um determinado governo ou com um determinado sistema político, mas que através destas atividades a ÖSW, de forma totalmente autônoma, intentara testemunhar solidariedade com o povo, que não deveria ser identificado com o atual governo. Porém, não havia jeito de conquistar a simpatia para sutilezas desta espécie, antes de tudo, dos representantes estudantis e dos representantes da ESG (Congregação Evangélica de Estudantes) ou de outros componentes ideologicamente militantes dos diversos grêmios .
A ARGÜIÇÃO DE PRIVILEGIAR ELITES
Apesar dos extraordinariamente difíceis problemas relacionados com o Programa de Parceria Acadêmica, o Prof. Schrader, devido s sua própria experiência, durante estes acerca de 10 anos da "época pioneira" prontificou-se a atuar como "navio quebra-gelos", por assim dizer. Em seu tempo foram tomados algumas das mais importantes decisões para o futuro do programa. Em palestra proferida por ocasião de um ato solene, no dia 15.12.1972, Dr. Schrader apontou "quais as atividades que estão sendo executadas pela ÖSW e quais as teorias que orientam sua atuação."
Referiu-se à acusação "de estarmos contribuindo à formação de elites. Mas esta alegação nos atinge apenas hipoteticamente. Pois deve-se contrapor a esta acusação o fato de que: 1) diminui a confiança na equação Mais gastos no setor de educação = mais desenvolvimento e, 2) independente dos diferentes tipos de ordem social, sempre se precisa pessoas, indivíduos humanos, para iniciar movimentos inovadores. Somente uma instituição particular como a nossa, cujo único compromisso é o da solidariedade com outros seres humanos, será capaz de demonstrar a autonomia sociopolítica que permite apoiar da mesma maneira um zambiano que provém dum sistema neo-socialista como também um brasileiro que provém de sistema de capitalismo privado de caráter tecnocrata. A crescente divisão de trabalho na sociedade no mundo inteiro, que pode ser observada - independente da ordem social porventura instaurada - exige a presença de camadas socais altamente especializadas. Se estas camadas também estão providas de poder e influência, seria uma outra pergunta. É a nossa tendência - e isso para nós também é uma forma de cristianismo praticado - de apoiar pessoas justamente quando não podem ocupar sua posição social que lhes seja conveniente, devido a suas atitudes. Embora que não defendemos o princípio "São os homens que fazem a história", somos suficientemente realistas ao reconhecer de que movimentos revolucionários ou reformistas tampouco podem suceder sem que haja pessoas altamente especializadas. Está bem claro que não damos apoio a projetos de especialização, quando estes favorecem a estabilização de poderios que impeçam a humanização da sociedade.
Como sempre, há cursos que se freqüenta de preferência e com mais proveito na República Federal; trata-se, além de certos cursos da área das Ciências, de muitos cursos da área das Ciências Sociais e Humanas onde o estudante pode-se familiarizar com a tradição do pensamento da ciência alemã ou onde ele se pode se afastar da zona de influência de manipulação ideológica norte-americana ou soviética. Por fim, também há cursos que, por causa da doutrina ou do caráter do bolsista, até melhor podem ser feitos em outro país europeu ou até no além-mar. Orgulhamo-nos um pouco de possibilitar a escolha para nossos bolsistas conforme estas considerações, sem que sejamos obrigados a privilegiar o prestígio nacional da República Federal da Alemanha ou de suas Igrejas às custas dos interesses de nossos bolsistas."
"É a opinião da ÖSW, que tendencialmente já há progredido uma autonomia do Terceiro Mundo no campo dos estudos básicos e que, hoje em dia, a responsabilidade das Igrejas nos países altamente industrializados deve ser dirigida também ao setor da promoção de pós-graduados." "Parece que os países do terceiro Mundo, inclusive por impulso próprio, cada vez mais preferem cursos breves, cursos de especialização. Um sociólogo brasileiro que há pouco nos visitou caraterizou esta atitude com a fórmula: Queremos vossa metodologia, mas a solução de nossos problemas é que a procuramos nós mesmos. Obviamente espera-se dos bolsistas do Terceiro Mundo que, em limitado projeto de aperfeiçoamento a nível de pós-graduação, aprendam em pouco tempo os métodos a serem aplicados para a solução de problemas, logo voltando para casa com esta metodologia, a fim de lá darem respostas aos problemas locais. Iremos encarar um problema, já isso nos distingue dos chamados países em via ao desenvolvimento, e não apenas a técnica que posteriormente aplicamos ... Nossos bolsistas devem ser capazes de permanentemente aplicar com flexibilidade o que eles tem aprendido aqui. Por esta razão a ÖSW zela pela orientação acadêmica e pessoal adequada dos bolsistas, enquanto eles estudam em países altamente industrializados. Isso já começa com a cuidadosa procura por uma instituição de estudos superiores e continua com permanente orientação, inclusive acadêmica, durante o curso, e encontra um acento todo especial no Programa Extracurricular, cultivado pela ÖSW através da organização de seminários e outros encontros de reflexão sobre a importância dos anos de estudo feitos e dos conhecimentos aqui adquiridos em relação ao desenvolvimento."
"Vinculamo-nos a determinados parceiros através de convênios, o que se explica não apenas pelo fato de que os escassos meios financeiros disponíveis deverão ser aplicados economicamente, mas também para assim testemunhar a solidariedade da Igreja junto às instituições do Terceiro Mundo. Acontece que hoje em dia se dá a ênfase principal a tais parceiros que sejam universidades ou instituições do ensino superior, pois ficou evidente que nossa intenção original, de apoiar também projetos de desenvolvimento através de certeiro apoio de medidas de formação, não foi viável na proporção desejada. Isso deve-se ao fato de que, antes de tudo, aos projetos em prol do desenvolvimento, mantidos pelo Estado ou também pela Igreja, são muito imediatistas para poderem se compatibilizar com os relativamente longos períodos de maturação no que tange aos processos de formação e, também, porque a ideologia dos counterparts lá predominante, em última análise até proíbe uma formação adequada dos counterparts por nós apoiados."
"Para os estudantes do Terceiro Mundo não seria ... o mesmo, ler sobre a dependência de seus países, e chegar ao conhecer pessoalmente os vários graus da dependência ou experimentar a solidariedade entre colegas que provêm de outros países. Jamais seria o mesmo, refletir cientificamente sobre certas regras referentes ao desenvolvimento social e econômico, e experimentar pessoalmente e existencialmente suas formas diferentes em países cujos caraterísticas são basicamente semelhantes, e nesta experiência sentir a solidariedade entre outros jovens acadêmicos provindos de outros países ou aprender a lamentar a ausência de tal solidariedade, por motivo de um crescente nacionalismo no Terceiro Mundo, respectivamente." (Prof. Dr. Achim Schrader, Die Stipendienpolitik des Ökumenischen Studienwerks; Ansprache anläßlich des Festaktes des ÖSW am 15.12.1972 [extrato]).
REFUGIADOS POLÍTICOS
O "Programa de Apoio aos Refugiados", da Obra Ecumênica, foi componente importante de suas atividades desde bem no início. Considerado um setor diacônico imprescindível, este setor do tradicional programa de bolsas da Obra Diacônica, de Stuttgart, foi logo integrado ao programa da ÖSW, apesar de que o Programa Ecumênico de Estudos (esp) fora prioritariamente desenhado como meio de ajuda ao desenvolvimento.
A primeira década deste trabalho destacou-se de forma excepcional pelo serviço em prol de uma geração perdida, do subcontinente latino-americano: primeiro chegaram os brasileiros, depois os chilenos, no fim da década os argentinos, e também bolivianos, uruguaios, e, mais tarde, jovens do Paraguai e El Salvador.
A ÖSW não tinha escolhido arbitrariamente seu engajamento em prol de pessoas cuja vida ou liberdade estava sendo ameaçada, muito ao contrário: era a própria historia mundi que o exigia. Podemos desenhar múltiplos programas magníficos ou maravilhosos, mas enfim sempre é a história que nos impõe seus próprios programas, estejamos ou não preparados para isso, mas deve-se aceitar o desafio. Imaginamos que isso seja totalmente contrário às estratégias dos projetistas, mas estamos convencidos de que justamente por isto, numa instituição da Igreja como a ÖSW, necessitamos também daquele pragmatismo parecido ao do bom samaritano na parábola de Lucas, que teve que improvisar socorro porque senão nada teria acontecido. Seguir exemplos de tais arquétipos, como os encontramos no Evangelho, deve - pelo menos até um certo grau - também ser permitido a um Programa da Igreja Evangélica na República Federal de Alemanha e em Berlim Ocidental (como se dizia naquela época), apesar de todo o ceticismo reinante na burocracia eclesiástica relacionada à ajuda ao desenvolvimento! Deve ser destacado nos anais da Igreja Evangélica na Alemanha que, durante uma etapa, isto de fato foi possível. Nos anos 70 e 80 foi possível dar apoio a 30 brasileiros, a mais do que 40 chilenos, 17 argentinos e 7 de outros países latino-americanos (Bolívia, Uruguai, Paraguai, El Salvador), ao todo, a aproximadamente 95 exilados, através do Programa de Apoio aos Refugiados da Obra Ecumênica. Encontrava-se entre os exilados também o líder estudantil paulista, José Serra, já na época um dos mais versados economistas brasileiros, atualmente ministro da Saúde, do governo Fernando Henrique Cardoso. Atendendo a um pedido de FHC, também a socióloga Nísisa Brasileira Augusta de Paula e Sousa recebeu o apoio da ÖSW. Outro intelectual, queimado pela ditadura, que recebeu ajuda da parte da ÖSW em 1972, era o professor de filosofia Gert Bornheim (com quem o diretor da Academia Evangélica no Rio Grande do Sul, Rev. Oskar Lützow, já em 1964 tinha mantido laços de cooperação). O compatrício de Serra, Luís Travassos, como presidente da UNE, fora um dos mais destacados líderes estudantis do Brasil nos anos 1967 e 1968. Ele foi preso em outubro de 1968 e apenas deixou a prisão no ano subseqüente. Junto com outros 14 presos políticos foi trocado pelo embaixador norte-americano Charles Burke Elbrick e depois enviado para México. Travassos, que não esteve envolvido no caso do seqüestro, mas como símbolo da resistência estudantil ficou incluído no grupo de presos a serem trocados, foi banido e teve de passar 10 anos de sua vida no exílio, primeiro no México e em Cuba, depois no Chile, onde conheceu sua esposa, Marijane Lisboa - que - por motivos formais - depoois se tornou "titular" da bolsa da ÖSW. Por motivo de sua filiação ao Diretório Acadêmico da faculdade, ela tinha sido afastada da universidade e presa por ordem do serviço de contra-espionagem da Marinha. Quando foi libertada, ela solicitou asilo político na embaixada do Chile. Uma vez no Chile, continuara com seu curso de sociologia. Depois do golpe de setembro, foi acolhida à embaixada do México. Via Cidade do México e Bruxelas, os Travassos refugiaram-se em Colônia e, em abril de 1974, foram aprovados pela ÖSW Bochum. Quem havia entrado na Alemanha junto com a família Travassos, fora a estudante de medicina, Maria Auxiliadora (Dora) Barcel[l]os Lara. Em 1968, colaborava no Diretório Acadêmico da Faculdade de Medicina da UFMG, Belo Horizonte. Em 01/03/74, junto com uma turmas de refugiados chilenos, foi aprovada como bolsista da ÖSW. Em outubro de 1974, matriculou-se na Universidade FU-Berlin. Durante a preparação para sua licenciatura, com a psique gravemente abalada, em fevereiro de 1976 teve de se submeter a um tratamento na clínica psiquiátrica de Spandau. No dia 1? de junho atirou-se diante do trem do metrô.
Outros exilados brasileiros, no decurso dos anos aprovados como bolsistas da ÖSW, foram Lúcio Castelo Branco, Jaime Rodrigues, Luiz Ramalho, Flávio Koutzii e Maria do Socorro Magalhães, para mencionarmos aqui pelo menos alguns.
Nestes anos, nos círculos eclesiásticos registrou-se uma certa "claustrofobia" que no decurso dos anos ainda aumentou. Aquela onda de solidariedade, conhecida antes de tudo da primavera do ano de 1974, que se havia erguido sobre os refugiados chilenos, neste meio tempo já tinha chegado ao esgotamento. Isto pode-se notar também numa recomendação (9.2.76) do Conselho com respeito ao "programa para chilenos" - na qual, sob a orientação do presidente Prof. Dr. Achim Schrader, se tentara chegar a um compromisso entre as normas prescritas pela burocracia eclesiástica e as necessidades do programa. O Conselho recomendou que se apresente um documento sobre as prioridades do "programa para chilenos" ao Comitê de Seleção, que se reuniu no dia 20.2.76. O que fora decisivo, era que a recomendação do Comitê de Seleção do dia 20.11.73, referente ao modo de atuar da equipe, devia ficar em vigor, para garantir o necessário espaço de atuação da executiva entre as reuniões do Comitê. "Em casos de emergência, a executiva da ÖSW ou DDW, por decisão do Comitê, fica encarregada de atuar em conformidade com os critérios do esp (pós-graduados por Bochum; graduados e projetos não-acadêmicos por Stuttgart), e de submeter os respectivos casos à próxima reunião." Com essas normas, era plenamente possível manter o programa para os refugiados. (confira Heinz F. Dressel, Kirche und Flüchtlinge, Das Flüchtlingsprogramm des Ökumenischen Studienwerks e. V. Bochum - Zur Geschichte des Ökumenischen Studienwerks e. V. - Augsburg 1996)
Demais bolsistas ecumênicos brasileiros de destaque foram Emil Albert Sobottka (Sociologia), Onésimo Oliveira Cardoso (Comunicação), Esdras Vasconcellos-Guerreiro (Psicologia), Francisco de Assis Esteves (Limnologia) - e, mais tarde, um de seus alunos, Reinaldo Bozelli (Ecologia nos Trópicos), René Ernaini Gertz (Ciências Políticas), Paulo A. Nogueira de Souza (Teologia) etc.
CONCLUSÃO
Prof. Dr. Achim Schrader, membro fundador da Obra Ecumênica de Estudos em Bochum, e, na primeira década do trabalho, vice-presidente da diretoria, Presidente do Conselho para o Departamento de Bolsas - organizado por sua iniciativa - mais do que 10 anos, alternadamente com o Pastor Dr. Hans-Otto Hahn, presidente do Comitê de Seleção do Programa Ecumênico de Estudos da Igreja Evangélica na Alemanha (EKD)- esp.
A semente do trabalho na ÖSW vingou: O Programa de Parceria Acadêmica sobreviveu apesar de fortes crises, primeiro, no que se refere aos programas com a América Latina, depois, no que se refere às parcerias com universidades e colégios na Ásia e na África, e acontece que nem aos críticos nem àqueles que nos sucederam ocorreu algo melhor até o presente momento. Devido ao fato de darmos enfoque às universidades "cristãs", que se encontram, antes de tudo, no sul e no leste da Ásia, apesar das perigosas crises dos anos 80 era possível salvar o Programa de Parceria Acadêmica, assim que no começo dos anos 90, na Ásia, na África, mas também no Brasil, se manteve a cooperação da ÖSW com universidades. No sul e no leste da Ásia, foram em primeiro lugar universidades cristãs na Indonésia, com as quais a ÖSW iniciou cooperação de muitos anos: em julho de 1975, celebrou-se a ratificação de Convênio com a Universitas Kristen Indonesia (UKI), Jakarta. Após, agregaram-se novas universidades parceiras:
a Universitas Kristen Satya Wacana (SWCU), Salatiga; a Universitas Kristen Duta Wacana (DWCU), Yogyakarta; a HKBP Nommensen University, Medan; a Universitas Kristen Petra, Surabaya e até a Universitas Timor-Timur, Dili, Timor-Leste. Na Tailândia, para além da parceria com a Payap University, Chiang Mia, chegou-se à cooperação com a progressista Kasetsart University, Bangkok. Na Índia, à parceria com o renomado Madras Christian College, MCC, Tambaram, substituindo a anterior parceria com Mar Thoma, Lucknow e Ewing Christian College, Allahabad. Novos laços criaram-se com um número de universidades no Vietnã, principalmente nas cidades de Hanoi e Ho-Chi-Minh. Aliás, de novo universidades "públicas", devido à missão da Igreja, que intencionalmente ultrapassa fronteiras artificiais, como o autor, numa meditação, explicitamente sublinhou, lembrando o verso bíblico, Col.3/11, que indica: "Não há mais cortinas de ferro que separam os povos, nem existe mais discriminação religiosa ou cultural, nem ódio entre raças e classes. Agora há somente Cristo, Cristo para todos."
No que se refere à América Latina, o autor destas, após viagem ao continente em janeiro 1990, ao terminar seu serviço na ÖSW, constatou: "Programas protestantes" tornam-se impraticáveis em "continente católico". As Igrejas evangélicas apresentam-se divididas e débeis em termos fincaneiros. Suas lideranças devem ser recrutadas da própria sociedade - conforme as circunstâncias de um ambiente católico. Para um futuro programa com a America Latina, parecem ser de suma importância duas coisas essenciais: exatamente na cooperação com Igrejas minoritárias na América Latina deve-se apoiar, com muito menos escrúpulos, as "forças leigas", profissionalmente não ligadas diretamente à Igreja Evangélica (e os quais talvez sejam até católicos). Quanto ao recrutamento, deve-se ignorar as estruturas "tradicionais", se o caso for, e, independente de considerações confessionais, devia-se considerar ex-bolsistas atuantes em instituições relevantes na área de política de desenvolvimento, comprometidos com instituições ou programas de orientação ecológica ou mesmo detentores de cargos de responsabilidade política especial.
Samstag, 11. Juli 2009
Samstag, 6. Juni 2009
Der Candomblé-Kult in Brasilien
Was die Sklaven aus ihrer afrikanischen Heimat mit nach Brasilien brachten
Als Diogo Cão im Jahre 1483 von Guinea zurück nach Portugal segelte, befanden sich an Bord vier junge Bantus, die dem Hofe vorgestellt werden sollten. Das zünftige Geschäft mit afrikanischen Sklaven lief erst gegen Ende des 15. Jh. richtig an. Die Schwarzen wurden zunächst zu den „Inseln" - Madeira, Azoren, Kapverden - verschifft, bis sich der Sklavenhandel im 16. Jh. auf Brasilien konzentrierte. 1585 zählte man von Recife bis Rio bereits 57.000 Seelen, darunter 14.000 Negersklaven.
Die Sklaven aus Afrika beeinflussten durch Sprache, Ernährungsgewohnheiten und Gebräuche, die sie aus ihrer Heimat mit nach Brasilien brachten, vor allem auch das religiöse Leben der Indigenen, der Europäer und der Mestizen, die sie jenseits des Ozeans antrafen, so dass sich graduell eine ganz spezifische Zivilisation entwickelte, die es am Ende sogar fertigbrachte, dass sich der lusitanische Katholizismus in der Kolonie veränderte, se amorenou e se amulatou, dass er „dunkler" wurde und sich „mulattisierte" wie Gilberto Freyre zu sagen pflegte. Besonders die „sudanesischen" Sklaven - Nagô, Gêges und Fanti-Achantis - die über ein beachtliches kulturelles Niveau verfügten, brachten in die Neue Welt ein gut entwickeltes religiöses Wissen mit, das sich sowohl auf legendäre Inhalte und verehrungswürdige Gottheiten als auch auf bestimmte Zeremonien, Formeln und Gesänge bezog.
Während des Transports auf den Sklavenschiffen verloren die zu Stücken - peças -degradierten Verschleppten, ihre Personalität und Identität: den afrikanischen Namen, die Freunde, in vielen Fällen die Familie, und wurden zu Objekten, zu Wesen ohne Rechte, ohne Ehre, ohne irgendwelchen Besitz, doch ihre Kultur, ihre Geschichte, ihre persönlichen Erlebnisse und Erfahrungen und ihre Glaubensvorstellungen konnten auch durch die Versklavung in Übersee nicht ausgelöscht werden. Eine formelle Zwangschristianisierung mittels der zumeist unmittelbar vor der Einschiffung in Afrika oder während des ersten Jahres in der neuen Welt vollzogenen Taufe und die damit verbundene „christliche" Namensgebung änderte daran nichts. Die tief in den Gemütern der Verschleppten verwurzelte Religiosität drängte nach Möglichkeiten sich auszudrücken. So entstanden in der Fremde Kulte, in denen heimatliche Riten, zu denen auch der Gebrauch von spezifischen Amuletten, die sozusagen den persönlichen „Schutzengel" verkörperten, zu neuem Leben erweckt wurden. Es war Sitte, dass jeder nach Übersee verschleppte Afrikaner, wie zuvor sein Vater, Großvater und alle seine Vorfahren einen guia, einen Schutzengel, einen orixá protetor besass. Das Bewusstsein, dass er sich, wie dies bei allen seinen Ahnen der Fall gewesen war, unter der Protektion seines persönlichen Führers, des orixás, befand, verlieh ihm die notwendige Durchhaltekraft in einer schier ausweglosen und nahezu unerträglichen Situation. Er verstand sich als Glied einer langen Kette von Vorfahren, und auch im Elend, in der Fremde, fühlte er sich von den mächtigen Ahnengeistern beschützt. In den Quartieren der Schwarzen tauchten ebós - Fetische - auf und die Sklaven trafen sich entweder heimlich oder geduldet in quilombos. So überlebte das Herzstück der afrikanischen Kultur für den nach Brasilien verschleppten Schwarzen in Gestalt seiner Religion.
Seitens der Grundherren wurde die religiöse Praxis der Sklaven, bei der es sich um eine besondere Variante der katholischen Volksfrömmigkeit zu handeln schien, nicht behindert. „Uma seita africana"- „eine afrikanische Sekte", heißt es noch heute in Bezug auf die Teilnehmer an katholischen Messen, bei denen bestimmte afrikanische Elemente gestattet sind. Den verborgenen Hintergrund eines durch die Umstände entstandenen Kultes, der auf die aus Afrika nach Brasilien verpflanzten religiösen Praktiken der Nagôs und Iorubás zurückging, erkannten die Fazendeiros offenbar in aller Regel nicht.
Das Verbot des Candomblé-Kultes und seine polizeiliche Verfolgung
Abgelegene Plätze - eine verborgene roça oder ein in unzugänglichem Gelände versteckter terreiro zum Singen und Tanzen - spielten in der Entstehungsgeschichte des Candomblé-Kultes eine wesentliche Rolle. Nicht selten befanden sich solche Stätten in unmittelbarer Nähe von quilombos, wohin sich entlaufene Sklaven geflüchtet hatten. Die Anhänger afrikanischer Riten suchten sich zur Pflege ihrer religiösen Traditionen insbesondere dann solche Orte aus, wenn die Sklavenhalter und Grundbesitzer ihnen die Verehrung der orixás verwehrten. Wie sie es aus ihrer Heimat gewohnt waren, statteten sie die verborgenen Kultstätten mit all den Gegenständen aus, deren es bedurfte, um den orixâs in angemessener Weise zu dienen.
In den Zeitungsarchiven Bahias sind wertvolle Hinweise auf polizeiliche Maßnahmen gegen den Candomblé-Kult aus der zweiten Hälfte des 19. Jh. zu finden. So ist dem Jornal da Bahia vom 31.5.1855, die Verhaftung mehrerer crioulas livres, escravos und africanas zu entnehmen, die an einem Engenho Velho genannten Ort „bei einem sogenannten Candombé" angetroffen worden waren. Das Jornal da Bahia vom 17.77.1859 vermeldet, der fetichista Grato, pai eines terreiro de candomblé, sei von der Polizei auf einem portugiesischen Schiff nach Afrika abgeschoben worden. Im Diário de Notícias (6.10.1896) wird vermeldet, der Polizeichef habe die Schließung eines candomblé in der Region Gantois angeordnet. Im 20. Jh. war der Druck der obrigkeitlichen Repression nicht geringer. A Tarde, (20.8.1928) beeilte sich zu kommentieren: „Wenn die Trommeln dröhnen - Polizei in einem afrikanischen Sanktuarium - Es tut not, die Stadt von diesen Räuberhöhlen zu reinigen ... Die gestrige Razzia war von Erfolg gekrönt, doch müssen ihr weitere in anderen Distrikten der Stadt folgen." Der Diario da Bahia (10.1.1929) monierte: „In keiner Stadt Brasiliens gibt es so viele verdammenswerte Sitten wie in Bahia." Danach nimmt das Blatt Bezug auf „Praktiken des niedrigen Spiritismus", bei denen Menschen in Trance verfielen, unartikulierte Laute von sich gäben und in Bewegungen verfielen, die an Epilepsie und Hysterie erinnerten. Es sei der Geist des Caboclos, heißt es, der in sie gefahren sei. Die Polizei müsse verstärkt Patrouillen einsetzen, um diese Räuberhöhlen, zu überraschen. „Bahia ist heutzutage kein Umschlagplatz für Sklaven mehr, wie zu Zeiten der Kolonie. Es ist eine der reichsten Capitalen des Landes; also rotte man in ihr den Fetischismus aus!" A Tarde (22.3.1929) triumphierte: Pae Quinquim está no xadrez - Heiligenvater Quinquim im Gefängnis" In weiblicher Kleidung habe der Zauberer getanzt und inmitten eines Kreises halbnackter Frauen gesungen! Da die Nachbarn wegen der bizarren Trommelrhythmen nicht hätten schlafen können, hätten sie die Polizei gerufen. Im terreiro Pae Quinquim habe die Polizei fast nackte Negerinnen angetroffen, die am Boden knieten und einen Kreis um eine andere Frau, eine farbige Mestizin, bildend, die unschickliche Lieder sang. Kaum hatte sie ausgesungen, ordnete die Obrigkeit ihre Verhaftung an. Die Frau mit der Hautfarbe einer Mestizin fingierte in Trance zu sein. Als Leutnant Vergne sich ihr näherte, sah er mit Entsetzen, dass es sich um einen Mann in Frauenkleidern handelte! Pae Quinquim hatte sich verwandelt ... Die Anwesenden wurden alle „in ihrer karnevalesken Kleidung" und „mit niedergeschlagenen Augen" abgeführt. Nachdem er verhört worden war, sperrte man den pae de santo in eine Gefängniszelle.
Der Candomblé-Kult als subversive Bedrohung der Vargas-Diktatur
Die Ächtung der afro-brasilianischen Kulte überdauerte die Auflösung des Kaiserreichs. Noch während der Vargas-Diktatur wurden die Candomblé-Kultstätten immer wieder von der Polizei heimgesucht und die mães-de-santo, - "Mütter der Heiligen" - wochenlang ins Gefängnis geworfen. Die macumbas wurden verwüstet und Kultgegenstände zerstört. A Tarde (19.4.1932) bezog sich auf die Verhaftung von paes e mães de santos und auf die damit verbundene Konfiszierung von bugiganga - „wertlosem Kram". Damit waren Gegenstände gemeint, wie sie von den candomblezeiros in ihren pegis versteckt gehalten würden, wie Kleidungsstücke, Federschmuck, Pfeil und Bogen, Trommeln etc. Mãe Julia berichtete von der polizeilichen Verfolgung bis gegen 1953 in Ceará, wo sich die Anhänger der Umbanda aus Furcht vor Razzien und Verhaftungen im Wald versammelten, wie zu Zeiten der Sklaverei. „Man mußte sich verstecken, denn die Polizei pflegte alle Welt festzunehmen, es war eine dauernde Verfolgung." Candomblé wurde zu einer subversiven Angelegenheit.
Zu den besonderen Schikanen zählte die Verordnung, dass alle terreiros in Bahia bei der Sittenpolizei im Amt für Öffentliche Sicherheit und Ordnung zu registrieren waren. In einem Gesetz aus dem Jahre 1934 hatte man die afro-brasilianischen Kultgemeinschaften in Rio unter die Jurisdiktion des Departamento de Tóxicos e Mistificações da Polícia do Rio de Janeiro, und dort unter die Aufsicht der Abteilung Costumes e Diversões gestellt, die es mit Angelegenheiten zu tun hatte, welche mit Alkohol- und Drogen, illegalem Glücksspiel sowie mit der Prostitution zusammenhingen. In Recife konnte man es im Gefolge des 1934 von Gilberto Freyre und Ulysses Pernambucano organisierten I. Congresso Afro-Brasileiro in Recife, schon als Erfolg verbuchen, dass der damalige Chef der Sicherheitspolizei einwilligte, die Zulassung der afro-brasilianischen Kulte und die Kontrolle über sie den Rabauken der Polizei zu entreißen, um sie dem Dienst für Sozialhygiene zur Betreuung von Psychopathen in Pernambuco - also Ärzten, Psychiatern, Psychologen und Sozialarbeitern zu übertragen.
Erst in der Nachkriegszeit, 1945, ließ der polizeiliche Druck nach, und 1946 garantierte die Verfassung allgemeine Religionsfreiheit. Auf Grund einer direkten Eingaben der geachteten Kultpriesterin Mãe Aninha an Getúlio Vargas verabschiedete dieser das „Trommel-Dekret", mit dem die ungehinderte Religionsausübung für die Anhänger der afro-brasilianischen Kulte ermöglicht wurde. Erst in den 60er Jahren erfolgte ein wichtiger Schritt in Richtung auf die offizielle Anerkennung der afro-brasilianischen Kulte, als man sie in die Religionsstatistik aufnahm, was durch ihre Einbeziehung in den Fragebogen des Brasilianischen Instituts für Geographie (IBGE)eingeleitet worden war.
Man schätzt, dass ca. 20% der Bevölkerung Brasiliens afro-brasilianischen Kulten anhängt. Allein in Bahia mag Candomblé mit 1500 terreiros vertreten sein. Viele der bedeutenderen Zentren von Bahia haben Filialen in Rio errichtet; heute soll es dort 30.000, in São Paulo 42.000 Kultzentren geben. Im Großraum Recife werden 20.000 vermutet. Was Porto Alegre betrifft, so nennt eine jüngere Untersuchung die überraschend hohe Zahl von 11.680 Zentren in Rio Grande do Sul, davon 2.500 in Porto Alegre und weitere 4.000 in Groß-Porto Alegre.
Pai Edu, Pai-de-Santo eines berühmten Kultzentrums in Olinda, das ich vor Jahren besuchte, erklärte, „die Karnevalsumzüge sind eigentlich von Exu. Man fuhr den Orixá spazieren. Früher hat die Polizei die Kultvorsteherinnen immer wieder verprügelt und ihre Kultstätten zerstört. Aber die Leute konnten ohne ihre Religion nicht leben. So haben sie eine Art Ritual entwickelt, das sie auf der Straße praktizierten. Wenn die Polizei sie anzugreifen drohte, beschwichtigten sie diese und sagten: Aber nein, das ist doch Karneval.
Um der Verfolgung zu entgehen, tarnten die Schwarzen ihre religiöse Verehrung, indem sie ihren Gottheiten die Namen christlicher Heiliger gaben. Darauf, vor allen Dingen, ist der gern als „synkretistisch" apostrophierte Charakter des Kultes zurückzuführen.
Die Symbiose Yoruba-Religion mit dem Volkskatholizismus
Wenn versucht wird, das Wesen des Candomblé zu beschreiben, greift man gern auf das Phänomen des „Synkretismus" zurück. Der Franziskaner Hugo Fragoso, mit dem ich darüber sprach, resümierte ein wenig spöttisch: „Der Schwarze kennt keinen Synkretismus, nur eine Symbiose". Erst die Weißen mit ihren aristotelischen Kategorien hätten den Glauben der Sklaven als „Synkretismus" oder „Verschmelzung" betrachtet. In Wirklichkeit hatte der Schwarze sich - wie übrigens vorher der Jude im streng katholischen Iberien oder später der cristão-novo in der portugiesischen Kolonie Brasil - zwangsläufig lediglich „akkommodiert". Dies wird für jedermann augenscheinlich, wenn man an die Anpassung der „banda" an das katholische Kirchenjahr denkt. Während des Kirchenjahres, in welches der Festkalender der afro-brasilianischen Religion sich fast nahtlos eingefügt hat, werden die großen Heiligenfeste im Einklang mit der Kirche begangen, angefangen beim Fest des Göttlichen Heiligen Geistes (in São Luís), hin zu den Gedenktagen von Santa Joana D‘Arc, Santa Rosa de Lima, São Raimundo, São Benedito, São Lázaro, Santo Antonio, São Sebastião etc. und Volksfesten wie São João oder Bumba-Meu-Boi. Die luso-brasilianische Volksfrömmigkeit drückt sich mit besonderer Vorliebe in den terreiros aus. Die „Akkommodation" ist auf beiden Seiten perfekt!
Indigene und afrikanische Traditionen vermischten sich mit iberischen Bräuchen zu einer Form des religiösen Tropikalismus, die bei den zahlreichen katholischen Festen und Prozessionen zur Geltung kam, besonders bei den Umzügen zur Zeit des Carnaval. Pai Edu, Pai-de-Santo eines berühmten Kultzentrums in Olinda, erklärte: „die Karnevalsumzüge sind eigentlich von Exu. Man fuhr den Orixá spazieren. Früher hat die Polizei die Kultvorsteherinnen immer wieder verprügelt und ihre Kultstätten zerstört. Aber die Leute konnten ohne ihre Religion nicht leben. So haben sie eine Art Ritual entwickelt, das sie auf der Straße praktizierten. Wenn die Polizei sie anzugreifen drohte, beschwichtigten sie diese und sagten: Aber nein, das ist doch Karneval!
Dürfen Schwarze trommeln und tanzen?
Ob man den Schwarzen bei derartigen Anlässen erlauben durfte, ihre Trommeln zu betätigen und sich ihren traditionellen Tänzen hinzugeben, war eine ernstliche Frage. Für nicht Wenige unter den streng-katholisch geprägten Weißen waren die ihrer Auffassung nach viel zu freizügigen Darbietungen der Schwarzen oft lästerlich, unanständig und - besonders die in den afrikanischen Tänzen üblichen erotischen Szenen - sexuell anstößig. Die Rhythmen der batuques erschienen ihnen „barbarisch", die Gesänge in unverständlichen Sprachen machten ihnen Angst. Wurden jedoch, wie 1814 aus Bahia vermeldet, die unter den Negern üblichen und Tänze in den Gassen verboten, so blieb es dennoch gestattet, dass sich die Sklaven auf den Plätzen von Graça und Barbalho bis zum toque das Ave-Marias, bis zum Abendgebet, zum Tanz versammelten, zumal „viele Herrschaften die Nützlichkeit anerkennen, die Schrecken der Gefangenschaft zu verringern, indem sie ihren Sklaven erlauben, sich zu vergnügen, so dass sie jeden Tag für ein paar Stunden ihren traurigen Status vergessen." In einer von Haus aus ungemein festfreudigen Gesellschaft, wie der luso-brasilianischen, blieb es dann nicht aus, dass die indigenen und afro-deszendenten Ethnien ihre besonderen, bestimmten „Heiligen" gewidmeten, Feste entwickelten.
Für den Kolonisten aus Portugal ebenso wie für den bereits in Brasilien geborenen Zuckerrohrpflanzer war die Verehrung der Heiligenfiguren das Selbstverständlichste von der Welt. Auch die Messe war für diese Menschen nichts anderes als eine fromme Zeremonie, die ihnen im Grunde unverständlich blieb, zumal sie in einer Sprache zelebriert wurde, die keiner verstand, und - wie es mit solchen Dingen immer und überall geschehen war - vermischte sich auch bei ihnen Fremdes, Profanes, Vor- und Ausserchristliches mit den ererbten religiösen Riten und Bräuchen zu einer autochthonen Form des Katholizismus. Der Volkskatholizismus mit seinem ausgeprägten Heiligenkult sei, wie Gilberto Freyre bemerkte, eine der Quellen gewesen, die „den afro-brasilianischen Synkretismus" gespeist hätten. In der Tat lassen sich verschiedene Parallelen zwischen dem traditionellen Katholizismus und den afro-brasilianischen Religionen aufzeigen, angefangen bei einem ausgeprägten Ritualismus und Symbolismus bis hin zum Kult der Heiligen, und es darf wohl ohne zu übertreiben hinzugefügt werden, dass es, je länger, desto mehr, auch eine gewisse Rückkoppelung in Richtung Volkskirche gegeben hat. Nicht von ungefähr sagte der verstorbene Erzbischof von Salvador und Primas von Brasilien, Dom Avellar Brandão, einmal; „Dieser caráter mestíço e cabóclo, die mestizenhafte Art des Candomblé dieser spirituelle Tropikalismus, den Candomblé in sich begreift, verleiht diesem Kult eine bemerkenswerte Anziehungskraft. Ich bin der Ansicht, dass der Candomblé als religiöser und in seinen Absichten ernsthafter und authentischer Ausdruck, Respekt verdient."
Fusion aus Katholizismus, Ahnenkult und Schamanismus
Da sowohl die Schwarzen als auch die Indios von Haus aus dem Ahnenkult anhingen und an Familiengeister glaubten, konsolidierte sich der „Heilige" - santo - des Volkskatholizismus und wurde als orixá - eine Art himmlischer Helfer - in den Kult einbezogen.
Die mestizenhafte Art des Candimblé zeigt sich in besonderer Weise auch in der Akkomodation an die katholische Marienverehrung. Die Gattin des Oxalá aus dem Yorubakult, die Meeres- oder auch Liebesgöttin Yemanjá, verwandelte sich in Nossa Senhora do Rosário - Unsere Liebe Frau vom Rosenkranz, in die Beschützerin, die bei Konflikten helfen, Zweifel vertreiben, Lebensprobleme lösen, Unglückliche trösten sollte. Yemanjá wird im Candomblé-Kult mit Maria der Jungfrau bzw. der Gottesmutter, Nossa Senhora da Conceição da Praia, Nossa Senhora da Glória, Nossa Senhora dos Navegantes, Nossa Senhora do Rosário, der Virgem Stella Maris etc., aber auch mit Yara aus der indigenen Mythologie gleichgesetzt. In der Zeit von Dezember bis Mai werden der Göttin des Meeres immer wieder oferendas - Geschenke bzw. Opfergaben - von den filhos de santo an die unzähligen Strände des Atlantischen Ozeans gebracht.
Was den Kult der orixás - bezeichnen wir sie einmal als Kräfte, welche die Natur und ihre Erscheinungen wie Gewässer, Wind, Wälder, Blitz usw. kontrollieren - betrifft, waren und sind die Anhänger der afro-brasilianischen Religionen nicht dogmatisch rigoros. In der Wildnis Brasiliens tauschten negros und índios ohne Vorbehalt ihr Wissen aus. So lernten einerseits die índios die Geheimnisse der afrikanischen Magie, während die negros vom índio die Magie des sertão kennenlernten. Beide Weisen der Magie haben sich profund zu einer einzigen magischen Vorstellungswelt vereinigt, woraus sich grundlegende Modifikationen der ursprünglichen afrikanischen und gleichzeitig auch der originären indianischen Kulte ergaben. Dabei darf man jedoch auch die Tatsache nicht übersehen, dass vor der Vermischung indigener und afrikanischer Elemente bereits ein „Austausch" zwischen dem iberisch-lusitanischen Katholizismus und dem indigenen Schamanismus stattgefunden hatte. Die índios vermeinten in den Manifestationen des christlichen Glaubens durch die Missionare bestimmte Elemente wiederzuerkennen, die ihnen aus ihrer eigenen Kultur geläufig waren, was letztlich die Akkulturation in Bezug auf den spanisch-portugiesischen Volkskatholizismus erleichterte. Andererseits wissen wir aus der Geschichte der Jesuitenreduktionen, dass auch die Missionare aus pädagogischen Gründen bestimmte Elemente aus der indigenen Kultur - z.B. Tänze und Gesänge - zur „Anknüpfung" übernommen haben.
Orixás werden in der Nagô-Sprache die transzententalen jenseitigen Mächte genannt. Das Volk konzentriert seine Verehrung mehr oder weniger auf ein Dutzend (ähnlich wie die Verehrer katholischer Heiliger, die in der Regel auch mit einem halben Dutzend von ihnen für den eigenen Gebrauch auskommen).
Oxalá, der höchste Gott des Candomblé-Kultes, steht in der Hierarchie der orixás an oberster Stelle; darum wird er auch mit Jesus Christus, O Senhor do Bomfim, dem verehrten Patron der Stadt Salvador de Bahia, oder dem Bom Jesus dos Navegantes etc. identifiziert. Seine Bekleidung ist völlig weiß, woraus u. a. folgt, dass an diesem Tag in der Hauptstadt des Candomblé - Bahia de Todos os Santos - viele Leute weiße Kleidung tragen. Oxalá wird durch zitronengrüne Muscheln, umgeben von einem Ring aus Blei, repräsentiert, Symbole für Fertilität und Reichtum. Im pegi - dem „Allerheiligsten" - ist für ihn ein Fetisch aufgestellt. Er wird am Freitag verehrt. Seine bevorzugten Tiere sind die Ziege, das weiße Huhn und der Täuberich.
Tieropfer nach dem Gesetz Moses
Auch Tieropfer gehören zum Candomblé-Kult, und nicht nur zu diesem. Es kann durchaus geschehen, dass man beim Besuch in einer, im Hinterland von Salvador gelegenen Dorfkapelle ein Tieropfer vorfindet, ein Huhn vielleicht, das einem orixá bzw. Schutzgeist von seinem filho dargebracht worden ist. Sagte nicht Mãe Aninha: „Wir sind ebenso Christen wie die Katholiken. Doch wir befolgen auch das Gesetz Moses. Der hat angeordnet, dass die Opfergaben aus Schafböcken, Ziegen, Ochsen, Hühnern, Tauben usw. bereitet werden sollen. Wir befolgen lediglich seine Gebote."
Als ich meinen Freund, den pai-de-santo Roberto Mauro, darauf ansprach, gab er mir zur Antwort: „Ich bestreite nicht, dass es Tieropfer gibt. Das Tieropfer, das beim Zeremonial des orixá - wir nennen es axé (einer Lebenskraft spendenden heiligen Handlung ) - in Gebrauch ist, besteht aus dem Blut, das auf dem Altar als Opfergabe für orixá dargebracht wird. Es ist die Energie des Lebewesens, die vom orixá absorbiert wird. Was vom Opfer übrig bleibt, ist das Fleisch, das dann ganz und gar an die filhos verteilt wird, in einem Tontopf über Kohlenfeuer gekocht, gut gewürzt und sehr wohlschmeckend, mit geröstetem Maniokmehl serviert und von den filhas zur Stillung ihres geistlichen Verlangens verzehrt, es ist wie bei einer Kommunion, denn alle essen von diesen Tieren. Die Zahl der Tieropfer wird täglich geringer", fuhr er fort, „freilich nicht, weil das einschlägige Wissen abnimmt, sondern weil sie zu teuer sind wie alles immer teurer wird! Dessen ungeachtet gibt es in meinem Haus weiterhin solche Opfer; es ist allerdings möglich, dass ihre Zahl weiter abnimmt. Solange der orixá diese Mythologie nicht geändert haben will, bleibt im Grundsatz alles wie gehabt. Eine Änderung kann es nur geben, wenn es angeordnet wird. Ich gehe davon aus, dass dies eines Tages geschehen wird, genau so wie alle anderen Religionen sich ebenfalls in Richtung auf einen stärker spirituellen Symbolismus entwickelt haben. Sicherlich wird das afrikanische Bewusstsein eines Tages an diesen Punkt gelangen; schließlich ist auch die heutige Praxis von derjenigen, die es vor 400 Jahren gegeben hat, bereits sehr verschieden. In der gegenwärtigen Zeit haben sich viele Dinge gewandelt und ich bin davon überzeugt, das dies auch in Zukunft geschehen wird. Die Revolution gehört zum Dasein. Aber nicht ich werde es sein, der solche Änderungen herbei zwingt, sondern der orixá wird sie anordnen. Und, was die Tieropfer betrifft, haben wir ja auch bestimmte Alternativen, z.B. Fisch, farofa de inhame, Früchte, dies sind bereits einige Alternativen. Aber es verändert sich stufenweise. Der Candomblé arbeitet jedoch nicht auf die Art, dass er sich einfach den Regeln der Gesellschaft unterwürfe. Er hat seine eigenen Regeln und seine eigene Zeit. Der orixá duldet nichts, was man ihm kurzerhand überstülpen möchte. Eher verweigert er sich als dass er etwas akzeptierte, was man ihm aufzwingen will. Niemand kann vor den orixá hintreten und sagen: Ich möchte dieses oder jenes tun, oder: von nun an wird es soundso gemacht! Man kann den orixá bitten, man kann ihn anflehen. Wenn sich etwas ändert, geht es stets vom orixá selbst aus, das ist genau so wie mit Gott in der Kirche."
Als Diogo Cão im Jahre 1483 von Guinea zurück nach Portugal segelte, befanden sich an Bord vier junge Bantus, die dem Hofe vorgestellt werden sollten. Das zünftige Geschäft mit afrikanischen Sklaven lief erst gegen Ende des 15. Jh. richtig an. Die Schwarzen wurden zunächst zu den „Inseln" - Madeira, Azoren, Kapverden - verschifft, bis sich der Sklavenhandel im 16. Jh. auf Brasilien konzentrierte. 1585 zählte man von Recife bis Rio bereits 57.000 Seelen, darunter 14.000 Negersklaven.
Die Sklaven aus Afrika beeinflussten durch Sprache, Ernährungsgewohnheiten und Gebräuche, die sie aus ihrer Heimat mit nach Brasilien brachten, vor allem auch das religiöse Leben der Indigenen, der Europäer und der Mestizen, die sie jenseits des Ozeans antrafen, so dass sich graduell eine ganz spezifische Zivilisation entwickelte, die es am Ende sogar fertigbrachte, dass sich der lusitanische Katholizismus in der Kolonie veränderte, se amorenou e se amulatou, dass er „dunkler" wurde und sich „mulattisierte" wie Gilberto Freyre zu sagen pflegte. Besonders die „sudanesischen" Sklaven - Nagô, Gêges und Fanti-Achantis - die über ein beachtliches kulturelles Niveau verfügten, brachten in die Neue Welt ein gut entwickeltes religiöses Wissen mit, das sich sowohl auf legendäre Inhalte und verehrungswürdige Gottheiten als auch auf bestimmte Zeremonien, Formeln und Gesänge bezog.
Während des Transports auf den Sklavenschiffen verloren die zu Stücken - peças -degradierten Verschleppten, ihre Personalität und Identität: den afrikanischen Namen, die Freunde, in vielen Fällen die Familie, und wurden zu Objekten, zu Wesen ohne Rechte, ohne Ehre, ohne irgendwelchen Besitz, doch ihre Kultur, ihre Geschichte, ihre persönlichen Erlebnisse und Erfahrungen und ihre Glaubensvorstellungen konnten auch durch die Versklavung in Übersee nicht ausgelöscht werden. Eine formelle Zwangschristianisierung mittels der zumeist unmittelbar vor der Einschiffung in Afrika oder während des ersten Jahres in der neuen Welt vollzogenen Taufe und die damit verbundene „christliche" Namensgebung änderte daran nichts. Die tief in den Gemütern der Verschleppten verwurzelte Religiosität drängte nach Möglichkeiten sich auszudrücken. So entstanden in der Fremde Kulte, in denen heimatliche Riten, zu denen auch der Gebrauch von spezifischen Amuletten, die sozusagen den persönlichen „Schutzengel" verkörperten, zu neuem Leben erweckt wurden. Es war Sitte, dass jeder nach Übersee verschleppte Afrikaner, wie zuvor sein Vater, Großvater und alle seine Vorfahren einen guia, einen Schutzengel, einen orixá protetor besass. Das Bewusstsein, dass er sich, wie dies bei allen seinen Ahnen der Fall gewesen war, unter der Protektion seines persönlichen Führers, des orixás, befand, verlieh ihm die notwendige Durchhaltekraft in einer schier ausweglosen und nahezu unerträglichen Situation. Er verstand sich als Glied einer langen Kette von Vorfahren, und auch im Elend, in der Fremde, fühlte er sich von den mächtigen Ahnengeistern beschützt. In den Quartieren der Schwarzen tauchten ebós - Fetische - auf und die Sklaven trafen sich entweder heimlich oder geduldet in quilombos. So überlebte das Herzstück der afrikanischen Kultur für den nach Brasilien verschleppten Schwarzen in Gestalt seiner Religion.
Seitens der Grundherren wurde die religiöse Praxis der Sklaven, bei der es sich um eine besondere Variante der katholischen Volksfrömmigkeit zu handeln schien, nicht behindert. „Uma seita africana"- „eine afrikanische Sekte", heißt es noch heute in Bezug auf die Teilnehmer an katholischen Messen, bei denen bestimmte afrikanische Elemente gestattet sind. Den verborgenen Hintergrund eines durch die Umstände entstandenen Kultes, der auf die aus Afrika nach Brasilien verpflanzten religiösen Praktiken der Nagôs und Iorubás zurückging, erkannten die Fazendeiros offenbar in aller Regel nicht.
Das Verbot des Candomblé-Kultes und seine polizeiliche Verfolgung
Abgelegene Plätze - eine verborgene roça oder ein in unzugänglichem Gelände versteckter terreiro zum Singen und Tanzen - spielten in der Entstehungsgeschichte des Candomblé-Kultes eine wesentliche Rolle. Nicht selten befanden sich solche Stätten in unmittelbarer Nähe von quilombos, wohin sich entlaufene Sklaven geflüchtet hatten. Die Anhänger afrikanischer Riten suchten sich zur Pflege ihrer religiösen Traditionen insbesondere dann solche Orte aus, wenn die Sklavenhalter und Grundbesitzer ihnen die Verehrung der orixás verwehrten. Wie sie es aus ihrer Heimat gewohnt waren, statteten sie die verborgenen Kultstätten mit all den Gegenständen aus, deren es bedurfte, um den orixâs in angemessener Weise zu dienen.
In den Zeitungsarchiven Bahias sind wertvolle Hinweise auf polizeiliche Maßnahmen gegen den Candomblé-Kult aus der zweiten Hälfte des 19. Jh. zu finden. So ist dem Jornal da Bahia vom 31.5.1855, die Verhaftung mehrerer crioulas livres, escravos und africanas zu entnehmen, die an einem Engenho Velho genannten Ort „bei einem sogenannten Candombé" angetroffen worden waren. Das Jornal da Bahia vom 17.77.1859 vermeldet, der fetichista Grato, pai eines terreiro de candomblé, sei von der Polizei auf einem portugiesischen Schiff nach Afrika abgeschoben worden. Im Diário de Notícias (6.10.1896) wird vermeldet, der Polizeichef habe die Schließung eines candomblé in der Region Gantois angeordnet. Im 20. Jh. war der Druck der obrigkeitlichen Repression nicht geringer. A Tarde, (20.8.1928) beeilte sich zu kommentieren: „Wenn die Trommeln dröhnen - Polizei in einem afrikanischen Sanktuarium - Es tut not, die Stadt von diesen Räuberhöhlen zu reinigen ... Die gestrige Razzia war von Erfolg gekrönt, doch müssen ihr weitere in anderen Distrikten der Stadt folgen." Der Diario da Bahia (10.1.1929) monierte: „In keiner Stadt Brasiliens gibt es so viele verdammenswerte Sitten wie in Bahia." Danach nimmt das Blatt Bezug auf „Praktiken des niedrigen Spiritismus", bei denen Menschen in Trance verfielen, unartikulierte Laute von sich gäben und in Bewegungen verfielen, die an Epilepsie und Hysterie erinnerten. Es sei der Geist des Caboclos, heißt es, der in sie gefahren sei. Die Polizei müsse verstärkt Patrouillen einsetzen, um diese Räuberhöhlen, zu überraschen. „Bahia ist heutzutage kein Umschlagplatz für Sklaven mehr, wie zu Zeiten der Kolonie. Es ist eine der reichsten Capitalen des Landes; also rotte man in ihr den Fetischismus aus!" A Tarde (22.3.1929) triumphierte: Pae Quinquim está no xadrez - Heiligenvater Quinquim im Gefängnis" In weiblicher Kleidung habe der Zauberer getanzt und inmitten eines Kreises halbnackter Frauen gesungen! Da die Nachbarn wegen der bizarren Trommelrhythmen nicht hätten schlafen können, hätten sie die Polizei gerufen. Im terreiro Pae Quinquim habe die Polizei fast nackte Negerinnen angetroffen, die am Boden knieten und einen Kreis um eine andere Frau, eine farbige Mestizin, bildend, die unschickliche Lieder sang. Kaum hatte sie ausgesungen, ordnete die Obrigkeit ihre Verhaftung an. Die Frau mit der Hautfarbe einer Mestizin fingierte in Trance zu sein. Als Leutnant Vergne sich ihr näherte, sah er mit Entsetzen, dass es sich um einen Mann in Frauenkleidern handelte! Pae Quinquim hatte sich verwandelt ... Die Anwesenden wurden alle „in ihrer karnevalesken Kleidung" und „mit niedergeschlagenen Augen" abgeführt. Nachdem er verhört worden war, sperrte man den pae de santo in eine Gefängniszelle.
Der Candomblé-Kult als subversive Bedrohung der Vargas-Diktatur
Die Ächtung der afro-brasilianischen Kulte überdauerte die Auflösung des Kaiserreichs. Noch während der Vargas-Diktatur wurden die Candomblé-Kultstätten immer wieder von der Polizei heimgesucht und die mães-de-santo, - "Mütter der Heiligen" - wochenlang ins Gefängnis geworfen. Die macumbas wurden verwüstet und Kultgegenstände zerstört. A Tarde (19.4.1932) bezog sich auf die Verhaftung von paes e mães de santos und auf die damit verbundene Konfiszierung von bugiganga - „wertlosem Kram". Damit waren Gegenstände gemeint, wie sie von den candomblezeiros in ihren pegis versteckt gehalten würden, wie Kleidungsstücke, Federschmuck, Pfeil und Bogen, Trommeln etc. Mãe Julia berichtete von der polizeilichen Verfolgung bis gegen 1953 in Ceará, wo sich die Anhänger der Umbanda aus Furcht vor Razzien und Verhaftungen im Wald versammelten, wie zu Zeiten der Sklaverei. „Man mußte sich verstecken, denn die Polizei pflegte alle Welt festzunehmen, es war eine dauernde Verfolgung." Candomblé wurde zu einer subversiven Angelegenheit.
Zu den besonderen Schikanen zählte die Verordnung, dass alle terreiros in Bahia bei der Sittenpolizei im Amt für Öffentliche Sicherheit und Ordnung zu registrieren waren. In einem Gesetz aus dem Jahre 1934 hatte man die afro-brasilianischen Kultgemeinschaften in Rio unter die Jurisdiktion des Departamento de Tóxicos e Mistificações da Polícia do Rio de Janeiro, und dort unter die Aufsicht der Abteilung Costumes e Diversões gestellt, die es mit Angelegenheiten zu tun hatte, welche mit Alkohol- und Drogen, illegalem Glücksspiel sowie mit der Prostitution zusammenhingen. In Recife konnte man es im Gefolge des 1934 von Gilberto Freyre und Ulysses Pernambucano organisierten I. Congresso Afro-Brasileiro in Recife, schon als Erfolg verbuchen, dass der damalige Chef der Sicherheitspolizei einwilligte, die Zulassung der afro-brasilianischen Kulte und die Kontrolle über sie den Rabauken der Polizei zu entreißen, um sie dem Dienst für Sozialhygiene zur Betreuung von Psychopathen in Pernambuco - also Ärzten, Psychiatern, Psychologen und Sozialarbeitern zu übertragen.
Erst in der Nachkriegszeit, 1945, ließ der polizeiliche Druck nach, und 1946 garantierte die Verfassung allgemeine Religionsfreiheit. Auf Grund einer direkten Eingaben der geachteten Kultpriesterin Mãe Aninha an Getúlio Vargas verabschiedete dieser das „Trommel-Dekret", mit dem die ungehinderte Religionsausübung für die Anhänger der afro-brasilianischen Kulte ermöglicht wurde. Erst in den 60er Jahren erfolgte ein wichtiger Schritt in Richtung auf die offizielle Anerkennung der afro-brasilianischen Kulte, als man sie in die Religionsstatistik aufnahm, was durch ihre Einbeziehung in den Fragebogen des Brasilianischen Instituts für Geographie (IBGE)eingeleitet worden war.
Man schätzt, dass ca. 20% der Bevölkerung Brasiliens afro-brasilianischen Kulten anhängt. Allein in Bahia mag Candomblé mit 1500 terreiros vertreten sein. Viele der bedeutenderen Zentren von Bahia haben Filialen in Rio errichtet; heute soll es dort 30.000, in São Paulo 42.000 Kultzentren geben. Im Großraum Recife werden 20.000 vermutet. Was Porto Alegre betrifft, so nennt eine jüngere Untersuchung die überraschend hohe Zahl von 11.680 Zentren in Rio Grande do Sul, davon 2.500 in Porto Alegre und weitere 4.000 in Groß-Porto Alegre.
Pai Edu, Pai-de-Santo eines berühmten Kultzentrums in Olinda, das ich vor Jahren besuchte, erklärte, „die Karnevalsumzüge sind eigentlich von Exu. Man fuhr den Orixá spazieren. Früher hat die Polizei die Kultvorsteherinnen immer wieder verprügelt und ihre Kultstätten zerstört. Aber die Leute konnten ohne ihre Religion nicht leben. So haben sie eine Art Ritual entwickelt, das sie auf der Straße praktizierten. Wenn die Polizei sie anzugreifen drohte, beschwichtigten sie diese und sagten: Aber nein, das ist doch Karneval.
Um der Verfolgung zu entgehen, tarnten die Schwarzen ihre religiöse Verehrung, indem sie ihren Gottheiten die Namen christlicher Heiliger gaben. Darauf, vor allen Dingen, ist der gern als „synkretistisch" apostrophierte Charakter des Kultes zurückzuführen.
Die Symbiose Yoruba-Religion mit dem Volkskatholizismus
Wenn versucht wird, das Wesen des Candomblé zu beschreiben, greift man gern auf das Phänomen des „Synkretismus" zurück. Der Franziskaner Hugo Fragoso, mit dem ich darüber sprach, resümierte ein wenig spöttisch: „Der Schwarze kennt keinen Synkretismus, nur eine Symbiose". Erst die Weißen mit ihren aristotelischen Kategorien hätten den Glauben der Sklaven als „Synkretismus" oder „Verschmelzung" betrachtet. In Wirklichkeit hatte der Schwarze sich - wie übrigens vorher der Jude im streng katholischen Iberien oder später der cristão-novo in der portugiesischen Kolonie Brasil - zwangsläufig lediglich „akkommodiert". Dies wird für jedermann augenscheinlich, wenn man an die Anpassung der „banda" an das katholische Kirchenjahr denkt. Während des Kirchenjahres, in welches der Festkalender der afro-brasilianischen Religion sich fast nahtlos eingefügt hat, werden die großen Heiligenfeste im Einklang mit der Kirche begangen, angefangen beim Fest des Göttlichen Heiligen Geistes (in São Luís), hin zu den Gedenktagen von Santa Joana D‘Arc, Santa Rosa de Lima, São Raimundo, São Benedito, São Lázaro, Santo Antonio, São Sebastião etc. und Volksfesten wie São João oder Bumba-Meu-Boi. Die luso-brasilianische Volksfrömmigkeit drückt sich mit besonderer Vorliebe in den terreiros aus. Die „Akkommodation" ist auf beiden Seiten perfekt!
Indigene und afrikanische Traditionen vermischten sich mit iberischen Bräuchen zu einer Form des religiösen Tropikalismus, die bei den zahlreichen katholischen Festen und Prozessionen zur Geltung kam, besonders bei den Umzügen zur Zeit des Carnaval. Pai Edu, Pai-de-Santo eines berühmten Kultzentrums in Olinda, erklärte: „die Karnevalsumzüge sind eigentlich von Exu. Man fuhr den Orixá spazieren. Früher hat die Polizei die Kultvorsteherinnen immer wieder verprügelt und ihre Kultstätten zerstört. Aber die Leute konnten ohne ihre Religion nicht leben. So haben sie eine Art Ritual entwickelt, das sie auf der Straße praktizierten. Wenn die Polizei sie anzugreifen drohte, beschwichtigten sie diese und sagten: Aber nein, das ist doch Karneval!
Dürfen Schwarze trommeln und tanzen?
Ob man den Schwarzen bei derartigen Anlässen erlauben durfte, ihre Trommeln zu betätigen und sich ihren traditionellen Tänzen hinzugeben, war eine ernstliche Frage. Für nicht Wenige unter den streng-katholisch geprägten Weißen waren die ihrer Auffassung nach viel zu freizügigen Darbietungen der Schwarzen oft lästerlich, unanständig und - besonders die in den afrikanischen Tänzen üblichen erotischen Szenen - sexuell anstößig. Die Rhythmen der batuques erschienen ihnen „barbarisch", die Gesänge in unverständlichen Sprachen machten ihnen Angst. Wurden jedoch, wie 1814 aus Bahia vermeldet, die unter den Negern üblichen und Tänze in den Gassen verboten, so blieb es dennoch gestattet, dass sich die Sklaven auf den Plätzen von Graça und Barbalho bis zum toque das Ave-Marias, bis zum Abendgebet, zum Tanz versammelten, zumal „viele Herrschaften die Nützlichkeit anerkennen, die Schrecken der Gefangenschaft zu verringern, indem sie ihren Sklaven erlauben, sich zu vergnügen, so dass sie jeden Tag für ein paar Stunden ihren traurigen Status vergessen." In einer von Haus aus ungemein festfreudigen Gesellschaft, wie der luso-brasilianischen, blieb es dann nicht aus, dass die indigenen und afro-deszendenten Ethnien ihre besonderen, bestimmten „Heiligen" gewidmeten, Feste entwickelten.
Für den Kolonisten aus Portugal ebenso wie für den bereits in Brasilien geborenen Zuckerrohrpflanzer war die Verehrung der Heiligenfiguren das Selbstverständlichste von der Welt. Auch die Messe war für diese Menschen nichts anderes als eine fromme Zeremonie, die ihnen im Grunde unverständlich blieb, zumal sie in einer Sprache zelebriert wurde, die keiner verstand, und - wie es mit solchen Dingen immer und überall geschehen war - vermischte sich auch bei ihnen Fremdes, Profanes, Vor- und Ausserchristliches mit den ererbten religiösen Riten und Bräuchen zu einer autochthonen Form des Katholizismus. Der Volkskatholizismus mit seinem ausgeprägten Heiligenkult sei, wie Gilberto Freyre bemerkte, eine der Quellen gewesen, die „den afro-brasilianischen Synkretismus" gespeist hätten. In der Tat lassen sich verschiedene Parallelen zwischen dem traditionellen Katholizismus und den afro-brasilianischen Religionen aufzeigen, angefangen bei einem ausgeprägten Ritualismus und Symbolismus bis hin zum Kult der Heiligen, und es darf wohl ohne zu übertreiben hinzugefügt werden, dass es, je länger, desto mehr, auch eine gewisse Rückkoppelung in Richtung Volkskirche gegeben hat. Nicht von ungefähr sagte der verstorbene Erzbischof von Salvador und Primas von Brasilien, Dom Avellar Brandão, einmal; „Dieser caráter mestíço e cabóclo, die mestizenhafte Art des Candomblé dieser spirituelle Tropikalismus, den Candomblé in sich begreift, verleiht diesem Kult eine bemerkenswerte Anziehungskraft. Ich bin der Ansicht, dass der Candomblé als religiöser und in seinen Absichten ernsthafter und authentischer Ausdruck, Respekt verdient."
Fusion aus Katholizismus, Ahnenkult und Schamanismus
Da sowohl die Schwarzen als auch die Indios von Haus aus dem Ahnenkult anhingen und an Familiengeister glaubten, konsolidierte sich der „Heilige" - santo - des Volkskatholizismus und wurde als orixá - eine Art himmlischer Helfer - in den Kult einbezogen.
Die mestizenhafte Art des Candimblé zeigt sich in besonderer Weise auch in der Akkomodation an die katholische Marienverehrung. Die Gattin des Oxalá aus dem Yorubakult, die Meeres- oder auch Liebesgöttin Yemanjá, verwandelte sich in Nossa Senhora do Rosário - Unsere Liebe Frau vom Rosenkranz, in die Beschützerin, die bei Konflikten helfen, Zweifel vertreiben, Lebensprobleme lösen, Unglückliche trösten sollte. Yemanjá wird im Candomblé-Kult mit Maria der Jungfrau bzw. der Gottesmutter, Nossa Senhora da Conceição da Praia, Nossa Senhora da Glória, Nossa Senhora dos Navegantes, Nossa Senhora do Rosário, der Virgem Stella Maris etc., aber auch mit Yara aus der indigenen Mythologie gleichgesetzt. In der Zeit von Dezember bis Mai werden der Göttin des Meeres immer wieder oferendas - Geschenke bzw. Opfergaben - von den filhos de santo an die unzähligen Strände des Atlantischen Ozeans gebracht.
Was den Kult der orixás - bezeichnen wir sie einmal als Kräfte, welche die Natur und ihre Erscheinungen wie Gewässer, Wind, Wälder, Blitz usw. kontrollieren - betrifft, waren und sind die Anhänger der afro-brasilianischen Religionen nicht dogmatisch rigoros. In der Wildnis Brasiliens tauschten negros und índios ohne Vorbehalt ihr Wissen aus. So lernten einerseits die índios die Geheimnisse der afrikanischen Magie, während die negros vom índio die Magie des sertão kennenlernten. Beide Weisen der Magie haben sich profund zu einer einzigen magischen Vorstellungswelt vereinigt, woraus sich grundlegende Modifikationen der ursprünglichen afrikanischen und gleichzeitig auch der originären indianischen Kulte ergaben. Dabei darf man jedoch auch die Tatsache nicht übersehen, dass vor der Vermischung indigener und afrikanischer Elemente bereits ein „Austausch" zwischen dem iberisch-lusitanischen Katholizismus und dem indigenen Schamanismus stattgefunden hatte. Die índios vermeinten in den Manifestationen des christlichen Glaubens durch die Missionare bestimmte Elemente wiederzuerkennen, die ihnen aus ihrer eigenen Kultur geläufig waren, was letztlich die Akkulturation in Bezug auf den spanisch-portugiesischen Volkskatholizismus erleichterte. Andererseits wissen wir aus der Geschichte der Jesuitenreduktionen, dass auch die Missionare aus pädagogischen Gründen bestimmte Elemente aus der indigenen Kultur - z.B. Tänze und Gesänge - zur „Anknüpfung" übernommen haben.
Orixás werden in der Nagô-Sprache die transzententalen jenseitigen Mächte genannt. Das Volk konzentriert seine Verehrung mehr oder weniger auf ein Dutzend (ähnlich wie die Verehrer katholischer Heiliger, die in der Regel auch mit einem halben Dutzend von ihnen für den eigenen Gebrauch auskommen).
Oxalá, der höchste Gott des Candomblé-Kultes, steht in der Hierarchie der orixás an oberster Stelle; darum wird er auch mit Jesus Christus, O Senhor do Bomfim, dem verehrten Patron der Stadt Salvador de Bahia, oder dem Bom Jesus dos Navegantes etc. identifiziert. Seine Bekleidung ist völlig weiß, woraus u. a. folgt, dass an diesem Tag in der Hauptstadt des Candomblé - Bahia de Todos os Santos - viele Leute weiße Kleidung tragen. Oxalá wird durch zitronengrüne Muscheln, umgeben von einem Ring aus Blei, repräsentiert, Symbole für Fertilität und Reichtum. Im pegi - dem „Allerheiligsten" - ist für ihn ein Fetisch aufgestellt. Er wird am Freitag verehrt. Seine bevorzugten Tiere sind die Ziege, das weiße Huhn und der Täuberich.
Tieropfer nach dem Gesetz Moses
Auch Tieropfer gehören zum Candomblé-Kult, und nicht nur zu diesem. Es kann durchaus geschehen, dass man beim Besuch in einer, im Hinterland von Salvador gelegenen Dorfkapelle ein Tieropfer vorfindet, ein Huhn vielleicht, das einem orixá bzw. Schutzgeist von seinem filho dargebracht worden ist. Sagte nicht Mãe Aninha: „Wir sind ebenso Christen wie die Katholiken. Doch wir befolgen auch das Gesetz Moses. Der hat angeordnet, dass die Opfergaben aus Schafböcken, Ziegen, Ochsen, Hühnern, Tauben usw. bereitet werden sollen. Wir befolgen lediglich seine Gebote."
Als ich meinen Freund, den pai-de-santo Roberto Mauro, darauf ansprach, gab er mir zur Antwort: „Ich bestreite nicht, dass es Tieropfer gibt. Das Tieropfer, das beim Zeremonial des orixá - wir nennen es axé (einer Lebenskraft spendenden heiligen Handlung ) - in Gebrauch ist, besteht aus dem Blut, das auf dem Altar als Opfergabe für orixá dargebracht wird. Es ist die Energie des Lebewesens, die vom orixá absorbiert wird. Was vom Opfer übrig bleibt, ist das Fleisch, das dann ganz und gar an die filhos verteilt wird, in einem Tontopf über Kohlenfeuer gekocht, gut gewürzt und sehr wohlschmeckend, mit geröstetem Maniokmehl serviert und von den filhas zur Stillung ihres geistlichen Verlangens verzehrt, es ist wie bei einer Kommunion, denn alle essen von diesen Tieren. Die Zahl der Tieropfer wird täglich geringer", fuhr er fort, „freilich nicht, weil das einschlägige Wissen abnimmt, sondern weil sie zu teuer sind wie alles immer teurer wird! Dessen ungeachtet gibt es in meinem Haus weiterhin solche Opfer; es ist allerdings möglich, dass ihre Zahl weiter abnimmt. Solange der orixá diese Mythologie nicht geändert haben will, bleibt im Grundsatz alles wie gehabt. Eine Änderung kann es nur geben, wenn es angeordnet wird. Ich gehe davon aus, dass dies eines Tages geschehen wird, genau so wie alle anderen Religionen sich ebenfalls in Richtung auf einen stärker spirituellen Symbolismus entwickelt haben. Sicherlich wird das afrikanische Bewusstsein eines Tages an diesen Punkt gelangen; schließlich ist auch die heutige Praxis von derjenigen, die es vor 400 Jahren gegeben hat, bereits sehr verschieden. In der gegenwärtigen Zeit haben sich viele Dinge gewandelt und ich bin davon überzeugt, das dies auch in Zukunft geschehen wird. Die Revolution gehört zum Dasein. Aber nicht ich werde es sein, der solche Änderungen herbei zwingt, sondern der orixá wird sie anordnen. Und, was die Tieropfer betrifft, haben wir ja auch bestimmte Alternativen, z.B. Fisch, farofa de inhame, Früchte, dies sind bereits einige Alternativen. Aber es verändert sich stufenweise. Der Candomblé arbeitet jedoch nicht auf die Art, dass er sich einfach den Regeln der Gesellschaft unterwürfe. Er hat seine eigenen Regeln und seine eigene Zeit. Der orixá duldet nichts, was man ihm kurzerhand überstülpen möchte. Eher verweigert er sich als dass er etwas akzeptierte, was man ihm aufzwingen will. Niemand kann vor den orixá hintreten und sagen: Ich möchte dieses oder jenes tun, oder: von nun an wird es soundso gemacht! Man kann den orixá bitten, man kann ihn anflehen. Wenn sich etwas ändert, geht es stets vom orixá selbst aus, das ist genau so wie mit Gott in der Kirche."
Samstag, 2. Mai 2009
A ALEMANHA NAZISTA E A IGREJA
O CONTEXTO
As Décadas de 1930 e 1940 no Brasil
No dia 25 de janeiro de 1928 GetúlioDornelles Vargas assumiu a presidência do RGS, unificou a política do Estado, preparando os gaúchos de chegar à presidência da República. Estorou a Revolução: „Rio Grande de pé, pelo Brasil!"
Logo depois - 3 de outubro de 1930 - na estação ferroviária de Porto Alegre, iniciando a subida para o Rio, Vargas despediu-se dos gaúchos com ua frase: "Desta viajada, ou se volta com honra ou não se volta mais."
Vargas estava no poder desde 1930; um golpe como tantos outros, identificado como Revolução. No ano de 1926, aos 43 anos, deputado inteiramente desconhecido, Getúlio foi nomeado ministro da Fazenda pelo presidente Washington Luiz. Surpresa total. Em 1928, Washington Luiz fazia de Vargas presidente do Rio Grande do Sul. Em 1930, foi empossado como chefe do governo provisório. (24. 06. 2004 TI)
A segunda Revolução, em 1935, um fracasso total. Pretendia mudar o regime político e a representatividade popular ou direta. O objetivo econômico: a produção e distribuição da riqueza de forma inteiramente diferente: estadizada. Essa Revolução chefiada por Carlo Prestes - o Cavalheiro da Esperança - foi a grande motivação para Getulio Vargas criar o cruel e selvagem Estado Novo de 1937.
A ditadura de Vargas criou o famigerado DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda). Detinha três prerrogativas principais:
1) censurar jornais, revistas e emissoras de rádio (a televisão não existia),
2) promover o governo e
3) importar papel de imprensa, com monopólio assegurado por decreto-lei.
Se um jornal conseguisse burlar a censura e transmitir críticas ou denúncias, mesmo nas entrelinhas, seu proprietário era chamado ao gabinete do diretor do DIP.
Elegante, Lourival Fontes oferecia café e água gelada, sem tocar no assunto. Participava apenas o naufrágio do navio que trazia as bobinas para a empresa, condenada a ficar um mês sem papel. (Não há jornal capaz de agüentar um dia sem sua matéria-prima!)
O proprietário prometia punição aos responsáveis pela ofensa ao Estado Novo. Depois de vê-lo sofrer por muitos minutos, Lourival Fontes dizia existir uma solução: Podar fora da redação todos os comunistas ... (Carlos Chagas, TI 26. 01. 2006)
A Segunda República, (de 1930 a 1945) faz parte daquele surrealismo Brasileiro: ditadura-democrática ou democracia-ditatorial. (Hélio Fernandes, TI. 2.01.2006)
Nesta mesma época na Italia tomou posse o facismo do Duce Benito Mussolini,
na Espanha apareceu o Generalíssimo Francisco Franco,
e na Alemanha surgiu o nazismo do Führer Adolf Hitler.
Começou „das Zeitalter des Führerprinzips" - a época em que reinava o PRINCÍPIO DO „LÍDER POLÍTICO, experiência não apenas amarga para os povos na velha Europa, mas infernal para todo mundo, da Rússia até o Japão, da Etiópia até Tunesia, dos Estados Unidos até o Brasil, cujos soldados lutaram na Itália - na famosa batalha de Monte Casino - contra o exército alemão.
Era isso o contexto que re refleta também na história eclestástica moderna, antes de tudo na história da Igreja Evangélica da Alemanha no período das origens, do triunfo e da derrota do Nazismo.
PARA A GENTE SE ENTROSAR
Possuo um panfleto impresso na década de 30 do século XX, tempo de minha infância; publicação de uma facção chauvinista da Igreja Protestante, tratando do relatório sobre a Conferência Ecumênica em Estocolmo, de 1927:
"É com grande orgulho que certos líderes eclesiásticos contam aos membros de suas comunidades como, na ocasião da Conferência, sentiram-se muito felizes porque ficaram sentados junto a uma delegação chinesa ou ao lado de um negro." Em seguida o autor continua: "Tais líderes eclesiásticos não percebem que nós ficamos horrorizados ao sermos informados de que em Estocolmo justamente a um negro foi permitido falar do púlpito do qual na nossa gloriosa história o grande Schleiermacher se dirigia ao auditório."
Num formulário de aplicação para tornar-se membro da Associação para uma Igreja de CaráterAlemã o solicitante foi obrigado a declarar: "Juro que sou livre de sangue judaico como também de sangue misturado com gente de cor, e darei importância absoluta a todos os itens que se referem à cultura alemã, e sempre darei maior prioridade a estes itens do que a assuntos ligados com a Igreja."
Trabalho apresentado nas instituições. Seminário Batista Rio de Janeiro (18.8.03). Seminário Metodista Rio de Janeiro (19.8.03).
O Partido Nazista declarou como seu objetivo principal a cruzada contra o boichevismo, defefldendo - sem vínculo com uma determinada Igreja - um assim chamado "cristianismo positivo" (Os 25 itens do Programa do NSDAP, § 24). Nisso a maioria do povo, inclusive os-protestantes com seus pastores, os suportaram.
O "Movimento Cristãos Alemães" (Kirchenbewegung Deutsche Christen) exigiu: A cruz deve ser substituída pelo símbolo nosso, a suástica!
Disseram: "Na pessoa do Führer (líder) reconhecemos o Enviado por Deus (Messias), que põe a Alemanha perante o Senhor da História, e chama-nos do culto dos fariseus e levitas ao sagrado serviço do samaritano" (Leffler cf. Hans Buchheim, Glaubenskrise im Dritten Reich, 1953, p. 51).
E ainda: "Esperamos que a nossa Igreja como Igreja do Povo se liber-te de tudo que não seja de caráter alemão no culto e no credo, antes de tudo do Antigo Testamento e sua moral recompensadora (Lohnmoral)."
Era assim que se pensava em grande parte da Igreja Protestante durante a minha infância.
A ALEMANHA NAZISTA
O nazismo formou-se nos anos de pós-guerra (1919 - 1933), e tem uma pré-história:
a) o Tratado de Paz (Friedensvertrag) de Versalhes...
Muito ao contrário do trato aplicado ao povo alemão nas zonas ocupadas pelos americanos, ingleses e franceses, em que logo depois da derrota do Terceiro Reich um plano de apoio econômico, o Plano Marshall, contribuiu para estabilizar a economia e com isso também a jovem democracia, depois da 1a Guerra Mundial o "Tratado de Paz" de Versalhes evitou a recuperação econômica do país e prejudicou também a evolução de um clima democrático na Alemanha. Houve, inclusive, a crise econômica mundial, uma inflação louca e uma fase de desemprego para se desesperar.
b) a falta de experiência democrática
As igrejas protestantes naquela época eram tanto "da direita como hoje são "da esquerda". Uma das razões do sucesso do nazismo foi a recusa da República pelas igrejas, pela indústria, pela classe média, que em última análise seguiram uma orientação monarquista (Sebastian Haffner, Von Bismarck zu Hitler, 1987, p. 208). E a juventude de orientação neoconservadora, sonhava com o "Terceiro Reino" - Drittes Reich" - de um Império Alemão ressuscitado.
A República de Weimar (1919-1933) foi uma democracia não desejada, "uma democracia sem democratas".
Permitem-me relembrar um aspecto da minha própria infância e juventude:
A creche, o jardim, a igreja, a escola, tudo isso na minha infância e juventude serviu como veículo da ideologia nazista. Fomos maltratados até o limite de nossa capacidade de absorver tudo isso, com coisas germânicas, obediência prussiano-militar, cujo valor máximo era a honra, a fidelidade, a obediência, a luta e a vitória. Nas aulas de Alemão, de História e de Geografia encheram-nos com a ideologia que emerge do slogan "um povo, um reino, um líder" e nos ensinaram devotamento à pátria, disposição para sacrificar-nos, camaradagem, solidariedade para com o nosso povo germânico, fidelidade ao credo da excelência de sangue e terra da pátria ("Blut und Boden"), e tudo com o mesmo fanatismo como o conhecemos hoje em dia do exemplo dos mullahs e aiatolás do mundo oriental. Escola, igreja, casa e "Hitlerjugend" (algo equivalente aos "Jovens Pioneiros" dos Stalinistas) exageraram para criar entre nós a mentalidade guerreira, a técnica da luta para os futuros defensores da pátria amada. Tampouco faltaram os jornais, livros e cadernos que nos deram exemplos impressionantes do ódio contra todos os nossos inimigos, antes de tudo os judeus.
A gente se criou com canções marciais nos lábios:
Blutig rot sind unsre Fahnen
Nossas bandeiras, vermelhas como o sangue
nos abrem o caminho que leva a liberdade.
As brigadas da Juventude de Hitler
derrotam as barricadas soviéticas.
Camarada, aperta minha mão,
nossa escravidão chegou ao fim.
Judeus choramingam,
cabeças rolam ao chão,
a Juventude de Hitler avança,
marxistas na parede!
Assim, os socialistas nacionais
lutam pela pátria.
Der Gott, der Eísen wachsen líess:
O Deus que fez crescer o ferro
não desejou possuir escravos.
Por isso ele colocou sabre, espada e lança
na mão direita do homem.
Por isso nos deu a coragem feroz
e a raiva da livre palavra,
a fim de que na batalha resistissemos
sacrificando nosso sangue, até a morte.
Morgenrot, Morgenrot
Aurora, aurora,
dá seu brilho até a morte iminente.
Logo vai soprar a trompete,
então vou ter que sacrificar minha vida,
eu e alguns dos camaradas.
Ficamos acostumados à morte pela pátria muito cedo já!
Quando, em julho de 1944, faltavam apenas nove meses até a derrota da Alemanha nazista pelos aliados, fui confirmado na igreja luterana, recebia uma certidão de confirmação ilustrada com um quadro de Arthur Kampf, com o título: Bênção dos Voluntários da Pátria. Nós, rapazes de 14 anos, a última reserva para a defesa da pátria, recebemos a bênção da Igreja para vencer ou morrer!
Devia completar o quadro sociopsicológico da realidade alemã nos anos de Hitler por mais um aspecto:
Parece-me que - entre outros fatores históricos e psicológicos que marcaram o comportamento do povo alemão - havia, antes de tudo, dois fatores determinantes que mais pesaram na constelação política, social e econômica após a 1a Guerra Mundial: a experiência imperial e a doutrina da superioridade da raça germânica:
• A raça germânica, em primeiro lugar o povo alemão, é superior às demais raças; por isso a Alemanha deve assumir a liderança entre todas as nações do mundo.
• A pior raça e o maior inimigo do povo alemão é o povo judeu.
• Todos os membros do povo alemão - não importa onde estejam - devem viver no país da Grã-Alemanha ("Grossdeutsches Reich") e exercer a hegemonia sobre o resto da humanidade.
• Para conseguir isso, deve-se substituir a democracia por um Estado autoritário com um forte líder carismático que dispõe de poder ilimitado: "Um povo, um império, um líder!"
Quando Hitler, em 1921 assumiu a direção do Partido Nazista (NSDAP), ele formou organizações paramilitares como a SA e a SS, instrumentos de perseguição e opressão dos adversários políticos, antes de tudo os comunistas e social-democratas.
No mês de setembro de 1930 o número de deputados nazistas no Parlamento aumentou de 12 para 107. Passaram-se apenas mais dois anos, e a bancada dos camisas-marrons tinham conseguido tornar-se o partido da maioria, com 230 deputados. Poderíamos dizer que os nazistas deviam esta vitória esmagadora à Igreja cuja orientaçãõ, majoritariamente, era em favor da direita. Foi um pastor evangélico que disse em 1931: „Reconhecemos no nacional-socialismo o movimento de libertação da Alemanha. Somos obrigados a aderir a este movimento, e seja este liderado até em nome do próprio diabo!"
Nas eleições de 1933 Hitler recebeu 51% dos votos e foi indicado Chanceler. Depois do incêndio do Parlamento (Reichstag), em 27.2.1933, o Parlamento com uma maioria nazista e simpatizanie concedeu-lhe um prazo de 5 anos para governar à base de decretos de emergência (Notverordnung zum Schutz des Reiches) sem convocar o Parlamento, período suficiente para montar uma das mais severas ditaduras do mundo, com a ditadura do único partido (NSDAP), com um SNI sem precedentes, com campos de concentração (KZ) que se tornaram máquinas de assassínio.
O resultado dos 12 anos de regime nazista foi uma hecatombe de pelo menos 50 milhões de mortos em todo o mundo, inclusive 6 milhões de judeus assassinados!
O COMPORTAMENTO DE DISTINTOS SETORES DA IGREJA
Vis-à-vis de um sistema brutalmente ditatorial, a posição dos cristãos - católicos e evangélicos - era bastante ambivalente. É por isso que a gente deve cuidar de desenhar um quadro estritamente preto e branco. Criou-se uma "Lenda em torno da Resistência da Igreja contra um Estado Totalitário" que diz: Houve na Igreja desde o início do Nazismo dois grupos bem definidos: de um lado havia aqueles que logo apoiaram a ideologia nazista, antes de tudo os membros do "Movimento Cristãos Alemães" (DC). No lado oposto havia um pequeno grupo de fiéis, firmes na crença com base no evangelho, decididamente contrários à ideologia de Hitler e totalmente contra a nomeação do capelão militar Ludwig Müller para a função de um "Reichsbischof - bispo do reino , ou seja, um bispo primário e autoritário de uma Igreja Germânica do Império Nazista.
Conforme esta "Lenda em torno da Resistência da Igreja contra um Estado Totalitário" aquele pequeno grupo de fiéis contrários à ideologia de Hitler congregou-se desde o início ao redor do E Martin Niemdller e do professor Karl Barth, fundadores da assim chamada "Igreja Confessante" (BK).
Para percebermos o background político que a partir de 1933 levou ao movimento evangélico de resistência ao nazismo, é importante lembrar em primeiro lugar do fato de que a grande maioria dos pastores provinha de um ambiente de um nacionalismo quase sagrado. Disse Karl Kupisch: "A derrota de 1918 tornou-se o ponto de partida de um novo nacionalismo, que se refletiu também no campo da igreja" (Zwischen Idealismus und Massendemokratie,1959). Os pastores, em sua grande maioria, consideravam-se patriotas e assim se comportaram. Eles haviam se criado na monarquia prussiana, por isso não conseguiram conformar-se com a república que encerrou o Império do "Kaiser" Wilhelm II, que fugiu para a Holanda. Sobreviveu um nacionalismo tremendo. É por isso que o tom de um profundo patriotismo no discurso de Hitler tanto estimulou a simpatia do povo junto ao fenômeno do Nazismo. No início do "Terceiro Reich" até Martin Niemiller, um dos fundadores da "Igreja Confessante" (BK) deixou-se atrair pelo nacionalismo de Hitler. E não apenas ele!
Um exemplo típico para o clima político nos anos do advento de Hitler foi o assassinato do ministro de Assuntos Exteriores Rathenau, em 1922. Martin Rade, editor da revista "Christliche Welt" órgão do Liberalismo teológico — no necrológio em nome da Universidade de Marburg, mencionou duas razões que obviamente deveriam ter levado ao crime fatal: 1) Rathenau era judeu; 2) como ministro ele correspondia de maneira positiva com o resto do mundo. Foi isso que o liquidou! O orador liberal rejeitou o antisemitismo nutrido pelos inimigos da república, constatando que este racismo bobo jamais correspondia com o caráter do povo dos poetas e filósofos, como no exterior muitas vezes se havia caracterizado os alemães.
Não pode haver dúvida, porém, de que foi um nacionalismo quase divinizado que definitivamente preparou a ascensão do nazismo no meio da Igreja evangélica.
Havia uma herança ideológica, que fortemente marcou a "alma" do povo: há muito tempo, pelo menos há um século, alguns românticos alimentaram o latente sonho de uma religião germanizante para todos os alemães. Entre tais sonhadores estava o orientalista Paul de Lagarde, nascido em 1827. Diante de uma empírica desunião ou fragmentação religiosa da população, ele imaginava uma religião especffica da própria raça - eine "arteigene" Religion - uma religião realmente adequada ao povo alemão. Nesse aspecto ele não pensava tanto na raça, como se poderia suspeitar; ele foi anti-semita como muitos intelectuais no Ocidente, desde a destruição de Jerusalém, mas foi justamente ele que observou: "A raça tem um papel apenas em relação aos cavalos, ao gado e às ovelhas!"
Sob a forte influência do autor inglês Houston Stewart Chamberlain, que vivia e publicava na Alemanha, fundou-se em 1922 a "União em prol de uma Igreja Alemã". Um dos fundadores introduziu em 1913 a expressão "Deutschchristentum" - Cristianismo Alemão. Em 1917 foi editado um livrinho sob o título: "Cristianismo Alemão conforme puros princípios evangélicos" - "Deutschchristentum auf rein evangelischer Grundlage".
Mais tarde esta "União em prol de uma Igreja Alemã" desembocou no "Movimento Cristãos Alemães"- "Glaubensbewegung Deutsche Christen" (DC). Quer dizer a ideologia acerca de um "Cristianismo Alemão" existia há muito tempo antes do advento do nazismo; existia em círculos sectários da Igreja evangélica, antes de tudo entre pessoas de pouca cultura ou educação deficiente.
No ano de 1931 encontramos na revista "Christlichen Welt" uma interessante análise do nazismo, de autoria de Hans E. Friedrich:
„As pré-condições do nacional-socialismo podem ser reduzidas a dois termos: Primeira guerra mundial e crise do capitalismo." Na época havia sob o ponto de vista sociológico os seguintes grupos de eleitores: 1) Oficiais reformados do exército; 2) uma juventude predisposta para aderir a uma ideologia de obstrução; 3) uma pequena burguesia desamparada; 4) um segmento do proletariado simpatizando com o ambiente da pequena burguesia; 5) muita gente desclassificada devido à catastrófica situação econômica do pais; 6) gente moralmente indignada e irritada; e 7) milhares de pessoas carentes da capacidade de desenvolver critérios políticos, apenas cheias de saudade dos gloriosos tempos do período anteguerra. O nazismo como tal consiste conforme Hans E. Friedrich, de quatro características essenciais, a saber: 1) agitação grosseira; 2) uma ideologia nitidamente nacionalista; 3) o anti-semitismo, e 4) a tática latente do partido.
Martin Rade constata uma idéia essencial no pensamento de Hitler: o dogma do anti-semitismo. Quando Hitler falou do marxismo, este termo era para ele apenas um siogan, sinônimo de pacifismo, judaísmo e traição da pátria. Disse Rade: "Se na história jamais foi promulgado e aceito um dogma sem qualquer critica, então era aquele do anti-semitismo."
Em seu livro "Minha Luta" Hitler revela claramente seus motivos fundamentais, quando diz que para a salvação do povo alemão e da pátria, e até para a salvação do mundo inteiro, pode figurar apenas um objetivo, um dever sagrado, que visa à exterminaç&) dos judeus e dos criminosos, que após a guerra destruíram o Reino da Alemanha (Rade).
Foi esta uma descrição do background ideológico-político-religioso em termos gerais, a fim de que pudéssemos entender o desenvolvimento que levou ao movimento eclesiástico de resistência ao Estado absoluto.
No início do Terceiro Reich existia uma linha divisória que dividia o povo e inclusive os membros da Igreja em duas partes: aqueles que se tornaram excitados pela êxtase sugestiva gerada por este orador carismático que era Hitler e logo o consideraram o salvador da pátria oprimida pelos vitoriosos na guerra de 1914-1918: e, no outro lado havia aqueles que desde logo desconfiaram do ambiente messiânico criado pelos nazistas, e que por isso tornaram-se imunizados contra o nacional-socialismo.
Poder-se-ia afirmar: os principais adversários do nazismo eram antes de tudo pessoas cultas, que devido a conceitos e princípios políticos, filosóficos e também ético-teológicos rejeitaram qualquer colaboração com o regime de Hitler. Cito aqui apenas dois nomes conhecidos que representam esta espécie de adversários "natos": Karl Barth e Paul Tillich, representantes da esquerda socialista entre os teólogos da época.
No ano de 1933 também Dietrich Bonhoeffer era conhecido entre seus amigos como adversário do nazismo. Entre os luteranos foi Hanns Lilje, que na Igreja se destacou como adversário das idéias nazistas. Ele também foi preso pela Gestapo, o SNI da ditadura nazista.
A IGREJA CONFESSANTE
Hoje todo mundo sabe: Hitler tolerava a religião por motivos meramente oportunistas. Assim ele resolvia utilizar a Igreja Evangélica como um instrumento de sua política, antes de tudo de sua política cultural, de sua politica interna, que lida com os assuntos interiores, e Hitler queria utilizar a Igreja Evangélica especialmente como instrumento de sua política racizfl. O professor liberal Weinel observou com toda razão que os nazistas pretendiam fazer da Igreja apenas um departamento do Ministério de Propaganda.
Os nazistas perceberam logo que a Igreja Evangélica poderia servir como um instrumento de propaganda de suas idéias. Foi por isso que o partido tanto se empenhou na organização de um "Movimento Cristãos Alemães" (DE), liderado por P. Joachim Hossenfelder, de Berlim, que chamou9 "Movimento Cristãos Alemães" de "SA de Cristo". Quando se cogitava introduzir a expressão "nacional-socialistas evangélicos" para esta "filial do fascismo", o "Führer" Adolf Hitler não concordou, alegando: "Uma igreja alemã, um cristianismo alemão é bobagem. Ou a gente é cristão ou alemão. Ambas as coisas não é possível." Hitler apenas utilizou a Igreja por motivos táticos, e só por um periodo limitado, como imaginava. Depois da guerra ele planejava liquidar todas as igrejas, substituindo-as por um culto germânico.
Nos estatutos do "Movimento Cristãos Alemães" constava: "Apoiamos uma fé em Cristo que seja apropriada ao caráter especifico de nosso povo. Consideramos a raça, a nacionalidade e a nação preciosos presentes e manifestações da ordem do Criador. Cumpre-nos preservar o que recebemos como a lei de Deus. Por isso temos que combater a miscigenação das raças. Também solicitamos que o nosso povo seja protegido da proliferação de pessoas ineptas e inferiores. Casamentos entre alemães e judeus devem ser proibidos."
Quando Hitler assumiu o poder em 1933 tornou-se óbvia a tentativa da incorporação das 28 igrejas territoriais evangélicas (Landeskirchen) ao sistema ideológico nazista. O governo nazista planejava a construção de uma só igreja, uma Igreja alemã nazista. Esta manobra não deu certo, pois ficou apenas uma minoria de pastores e comunidades que se incorporaram à "Reichskirche" - Igreja do Reino que pretendia ser a "Igreja germânico-ariana do Império Alemão". Na ocasião do Sínodo Nacional da Igreja Evangélica Alemã, dia 27/9/1933, na cidade de Wittenberg, o capelão do exército Ludwig Müller elegeu-se Bispo do Reino (Reichsbischof. Nas eleições periódicas de presbíteros muitos nazistas se elegeram, subvertendo deste modo as estruturas das comunidades e da administração eclesiástica. A "Igreja Confessante" (BK), porém, resistiu às pressões do governo e mostrou-se firme na defesa da fé e dos tradicionais valores éticos.
Quando por meio do "Arierparagraph" (lei ariana) o governo exigiu o afastamento de pastores de origem judaica ou casados com mulheres não-arianas ou semi-arianas, o pastor Martin Niemöller (ex-comandante de um navio submarino) que nos anos anteriores tinha até apoiado o nazismo, tornou-se o inspirador e porta-voz da Igreja Confessante, porém foi preso em 1938 até que os americanos o libertaram em 1945 (Golo Mann, Deutsche Geschichte 1919 -1945, 1961, p. 115). A Igreja Unida da Prússia (APU) aceitou a infame "lei ariana" por 132 contra 48 votos.
A posição dos liberais em redor de Martin Rade quanto ao mito nazista acerca da importância quase-religiosa da pureza da sangue foi muito clara: „Quem acredita o própria sangue como a mais importante fonte da revelação, a priori não pode ser cristão."
Por pressões internacionais, no dia 25 de janeiro de 1934 Hitler recebeu os representantes da Igreja Evangélica liderados pelo "bispo fantoche", o "Reichsbischof" Müller, e o porta-voz da oposição dentro da Igreja, o pastor Niemõller. Na ocasião Gõring leu o teor de uma conversa telefônica de Niemöller gravada pela „Gestapo" (SNI) na mesma manhã. Aí a posição de Niemöller tornou-se quase nula (Barbara Beuys, Vergesst uns nicht, 1990, p.225).
O resultado do encontro com o "Führer" foi este:
Já dois dias depois a maioria da oposição protestante assinou um documento em favor de uma Igreja Nacional: "Sob a impressão do momento histórico do encontro com o Chanceler do Reino os líderes da Igreja Evangélica Alemã afirmam com unanimidade sua fidelidade ao Terceiro Reich e seu líder. Eles condenam nitidamente todas as maquinações de critica contra o Estado, o povo e o Movimento da Ressurreição Nacional. Os lideres eclesiásticos unanimemente apóiam o Reichsbischof, decididos a efetivar as disposições e os decretos por ele providenciados."
Logo cerca de 1.500 pastores quitaram o Pfarrernotbund (Associação de Emergência para Pastores) - que foi o embrião da Igreja Confessante -, solidarizando-se assim com seus chefes que apoiaram a política da Igreja Nacional suportada pelo governo nazista, pensando que desta maneira ajudariam a manter a paz e a unidade da Igreja Protestante.
Niemólier, que não assinara a carta de compromisso, declarou numa mensagem dirigida ao bispo da Igreja de Hamburgo: "Estamos perplexos e profundamente comovidos, pois registramos uma completa renúncia da verdade do evangelho e um abandono da Igreja." Imediatamente depois Niemi$ller sofreu uma série de represálias: policiais invadiram sua casa paroquial e levaram os papéis do "Pfarrernotbund" (Associação de Emergência para Pastores); tentou-se (em vão) seu afastamento do pastorado, etc.
O governo, porém, lançou uma comunicação afirmando que os lideres da Igreja Evangélica Alemã liderada pelo Reichsbischof Ludwig Muiler, em recepção solene no gabinete do Chanceler Adolf Hitler, expressaram seu pleno apoio ao "Führer".
Foi este o momento em que de fato surgiu a "Igreja Confessante".
A LUTA DA IGREJA CONTRA UM ESTADO ABSOLUTO
O evento mais marcante na história da Igreja Confessante foi a "Declaração de Barmen", elaborada por Karl Barth e ratificada pelos 139 representantes de 18 igrejas regionais luteranas, reformadas e "unidas" no Sínodo que se reuniu em maio de 1934 na cidade de Barmen.
A mensagem do encontro foi:
O lugar da cruz suástica não deve ser ao lado da cruz de Cristo, nem deve ser idêntica com a cruz ou até substituindo-a, mas somente debaixo da cruz de Cristo.
O Sínodo expressa-se incondicionalmente pelo mantimento da fé herdada sem qualquer acréscimo de elementos germano-nazistas. Ele confessa que a unidade das igrejas evangélicas na Alemanha pode resultar exclusiva-mente da fé na palavra de Deus.
Tudo isso foi explicado em seis parágrafos, que mais ou menos declaram:
1. Confirma-se que Cristo seja a única fonte de revelação; por isso rejeita-se a falsa doutrina que admite outros acontecimentos ou poderes como fundamento da pregação.
2. Confirma-se que a oferta e exigência de Cristo não se refere apenas à vida religiosa nos cultos da igreja, mas à vida inteira do cristão; por isso rejeita-se a falsa doutrina que admite que fora disso haja ainda outros setores aos quais o cristão deva obedecer e servir.
3. Confirma-se que a Igreja é a congregação de irmãos na qual Cristo pelo verbo e pelos sacramentos é presente; por isso rejeita-se a falsa doutrina que admite que seja permitida à Igreja cada vez assimilar a sua mensagem e a sua ordem às respectivas ideologias predominantes em determinadas épocas.
4. Confirma-se que os dirigentes da Igreja - presbíteros, pastores e bispos - não são donos, mas servos da comunidade; por isso rejeita-se a falsa doutrina que defende na Igreja um sistema de liderança autoritária semelhante ao sistema de liderança no Estado absoluto.
5. Confirma-se e reconhece-se que devido à ordem estabelecida por Deus, seja a incumbência do Estado zelar pela ordem, justiça e paz entre o povo; rejeita-se, porém, a falsa doutrina que admite que o Estado deveria tornar-se a única e totalitária instância ideológica para cada um de seus cidadãos.
6. Confirma-se que a Igreja, em plena liberdade, por ordem e em nome do Senhor, deve divulgar a palavra de Deus e administrar os sacramentos; por isso rejeita-se a falsa doutrina que exige a subordinação da Igreja aos interesses do Estado.
Nos anos seguintes de 1935 a 1937 - a repressão à Igreja Confessante por parte do Estado aumentou.
Formou-se também a resistência. Os pastores fiéis à Igreja Confessante exigiram: Nossa posição junto ao "Reichsbischof deve ser:
„Devemos obedecer a Deus e nõo aos homens" (Act. 5, 29) e "Dêem ao Imperador o que é do Imperador, e a Deus o que é de Deus" (Mt. 22, 21).
No dia da instalação solene do bispo Müller, em Berlim, a cidade mostrou-se vermelha devido a tantas bandeiras com o símbolo da suástica. Acontece, porém, que nenhum dos bispos e líderes da Igreja dos tempos antes de Hitler estava presente no culto de ordenação do novo bispo. Dominaram as bandeiras nazistas e os destacamentos da SA em camisas de cor marrom.
No resto do país, porém, as igrejas estavam superlotadas nesse horário. As comunidades oraram por um cristianismo verdadeiro, então ameaçado por falsas doutrinas (Stewart W. Herman, Eure Seelen wolien wir, Kirche im Untergrund, München, 1951).
O PAPEL TEOLÓGICO DE DIETRICH BONHOEFFER
a) Uma exposição sumária da vida de Bonhoeffer
* 4.2.1906 (Breslau) + 8.2.1945 (Flossenbürg)
Era filho de uma família de classe média alta: o pai: professor e psiquiatra, a mãe: professora (8 filhos).
1923, Universidades de Tübingen e Berlin, onde estuda Teologia;
1924, uma estada em Roma (Páscoa: bênção papal aurbi et orbi")
Contatos ecumênicos, relação com Karl Barth (visão crítica do comportamento da Igreja!).
1927, com 21 anos, Doutorado ("Sanctorum Communio )
1928, Pastor assistente na Comunidade Alemã de Barcelona.
1930, docente na Universidade de Berlim (com 24 anos).
l. ano Union Theological Seminary N. Y. / excursão para Cuba.
No convívio com negros e latinos torna-se anti-racista e pacifista.
1.2.1933, palestra radiofônica criticando o movimento nazista (desligada!)
Bonhoeffer, não encontrando mais o ambiente desejado na Igreja de Berlim, assume o pastorado na Comunidade alemã em Hill, Inglaterra (17.10.1933).
1935, Bonhoeffer volta da Inglaterra para a Alemanha e assume a direção do Seminário (ilegal) de pregadores da Igreja Confessante em Finkenwalde.
1936, O Seminário faz uma viagem de estudos à Suécia.
1937, a Gestapo (SNI) fecha o Seminário ilegal; Bonhoeffer visita Nova York.
9.11.1938: „Kristallnacht" quando os nazistas incendiaram centenas de sinagogas no país e deportaram 35 mil judeus para campos de concentração.
Devo aqui incluir uma importante observação:
Cresci durante os anos da ditadura nazista, percebendo as poucas coisas que uma criança ou um adolescente enxerga dos feitos políticos que acontecem ao redor dela. Mais tarde, quando estudei a história eclesiástica contemporânea, tomei conhecimento do fato de que Igrejas regionais inteiras ("Landeskirchen") covardemente se subjugaram à ideologia nazista. A prova mais penosa neste contexto é o fato de que os consistórios destas Igrejas sequer moveram um dedo para defender seus próprios membros, irmãos não-arianos, fiéis protestantes, mas agora chamados de "judeus", contra as agressões e crimes do governo nazista. As diretorias das Igrejas regionais até ajudaram ativamente na "arianização" ou "de-judificação" da sociedade alemã, por exemplo pela deposição de pastores de descendência israelita, como ocorreu na Igreja de Westfália com o pastor da cidade de Bochum, Dr. Hans Ehrenfeld, cuja filha está casada com meu colega e amigo Dr. John, Principal do United Theeological Coilege in Bangalore, Índia. Os dois me visitaram um dia no campus da Obra Ecumênica de Estudos em Bochum e me contaram muitos detalhes das ocorrências.
Hans Ehrenfeld nasceu em 1883 em Hamburg, filho de pais judeus. Ele fez o Doutorado na área das Ciências Políticas e Econômicas, como também de Filosofia e Psicologia e tornou-se professor de Filosofia na Universidade de Heidelberg, dedicando-se preferencialmente a Hegel e Kant. Durante a 1 Guerra Mundial, fez seu serviço militar no exército alemão. Com 26 anos, ainda antes da guerra, foi batizado. Após a guerra estudou Teologia, foi ordenado pastor em 1925, e instalado na comunidade de Bochum. Em 1933 começou a perseguição sistemática dos judeus. As leis de Nürnberg proibiam qualquer atividade de judeus em cargos públicos, inclusive na Igreja. Em 1937 a Igreja de Westfália aposentou o pastor Ehrenfeld. No dia 9 de novembro de 1938, na assim chamada "Kristallnacht", noite de pogrom organizado em todo território nacional, os nazistas destruíram também a sinagoga de Bochum, queimando-a. Na ausência de Dr. Ehrenfeld, destruíram o apartamento dele, jogando os móveis fora pela janela. Quando ele voltou, foi preso e deportado ao campo de concentração em Oranienburg. Devido às boas relações internacionais de Ehrenfeld, foi posto em liberdade e autorizado a emigrar para Inglaterra. Em 1947 ele voltou para a Alemanha, onde a Igreja de Westfália o incumbiu com atividades no campo das relações públicas. Faleceu em 1958 em Heidelberg. Uma história vergonhosa!
Voltando ao currículo de Bonhoeffer, cabe-nos mencionar:
1939, ele aceitou um convite para dar preleções em N.Y. a fim de evitar o serviço militar na Alemanha, mas quando tudo indica o começo de uma guerra contra a Polônia, Bonhoeffer volta à Alemanha, para estar perto dos acontecimentos. Ele continua organizando "Sammelvikariate", cursos teológicos intensivos para o treinamento de pastores, atividade proibida em 1940.
1940, Bonhoeffer trabalha para a "Contra-Inteligência do Exército", que de fato conspirou contra Hitler (Almirante Canaris).
5.4.1943, foi o dia de sua prisão, motivada por suas tendências pacifistas (Berlin-Tegel).
20.7.1944,atentado contra Hitler; prisão dos autores e inspiradores; certos documentos envolvem Bonhoeffer na conspiração, inclusive na alta traição, crimes normalmente castigados com a pena capital.
8. 10. 1944, transferência para a prisão do SNI em Berlim. O Tribunal Popular de Freisler começa a liquidar cerca de 5 mil pessoas culpadas ou suspeitas. Bonhoeffer é transferido ao campo de concentração de Buchenwald
8.4.1945, chegada no Campo de Concentração Flossenbürg; Bonhoeffer é enforcado, com 39 anos de idade.
Dia 30.4.1945, Hitler suicidou-se e logo depois, dia 8.5.1945, ocorre a capitulação.
O papel teológico de Dietrich Bonhoeffer
Em primeiro lugar: em meu entendimento a teologia de Bonhoeffer dá uma impressão bastante contraditória, pelo menos pode-se constatar duas fases radicalmente distintas uma da outra:
O primeiro período está marcado por uma teologia muito conservadora, mas há exceções. Como milhares de outros teólogos protestantes, ele pôde dizer que a "ética é uma coisa do sangue e da história". Partindo de uma posição nacional-conservadora, ele não hesitou em distinguir entre uma "ética alemã, uma ética francesa e uma ética americana." Negou a existência de uma ética geral para todos os homens do mundo. Reconhece apenas uma ética utilitarista, dizendo: "Estou pronto para proteger meu irmão, minha mãe, meu povo, apesar de que estou completamente ciente de que isso seja possível apenas com derramamento de sangue. Mas o amor à pátria santificará o assassinato e a guerra." - Passo a passo, porém, o jovem teólogo Bonhoeffer, que em 1928, durante seu vicariado em Barcelona, fala assim, transforma-se em um cristão que, no púlpito como na cátedra, aprende a fazer uso da teologia, sem que esta disciplina seja a norma normans para sua existência perante Deus e os homens. Ser relacionado a Cristo torna-se mais importante para Bonhoeffer do que ser alemão.
Num segundo período Bonhoeffer se destaca por uma Teologia de caráter libertador e existencialista. A partir de então ele defende uma ética ecumênica de paz. Pouco a pouco o cristão Bonhoeffer evoluiu para um personagem contemporâneo, assumindo a responsabilidade do cristão emancipado para com a sociedade exterior e para com o mundo que o cercava (cf. Karl Martin, Ich miichte glauben lernen, Wandlungsprozesse in der Biographie Dietrich Bonhoeffers, Dtsch. Pfarrerblatt 5/2005). E na prisão, nos 18 meses de solidão, ele começa a descobrir o cristão maduro ("mündig"), que alcançou sua maioridade como pessoa e sua autonomia como ser humano que - libertado pelo evangelho - responde apenas ao Senhor.
Bonhoeffer descobriu que o mundo estava cheio de tais pessoas de maioridade, e muitas vezes pessoas que careciam daquela religiosidade que os padres e pastores durante quase dois mil anos defendiam como essencial para a salvação (eterna). Vis-à-vis desta realidade, Bonhoeffer deduziu que seria adequado e necessário alcançar esta gente que carecia da religiosidade "clássica" com uma proclamação não-religiosa da palavra de Deus ("nichtreligióse Verkündigung"). Sua leitura da Bíblia tornou-se diferente daquela praticada anteriormente. Agora as palavras bíblicas revelam a realidade em que ele se encontra, e não narra mais coisas e assuntos de tempos passados. "Águas passadas não movem moinhos", se diz. Trata-se justamente da leitura descoberta novamente pela "Teologia de Ubertação". Boff antecipado!
Nossa abordagem do homem moderno e emancipado deve ter um caráter não-religioso, porque Deus quer encontrar o homem de maioridade não apenas em seus sonhos ou desejos relacionados com suas eventuais idéias religiosas dirigidas aos aspectos que possa ter no além desta vida, mas Ele quer encontrar o homem bem no meio de sua vida de dia a dia, neste mundo, nesta realidade, nesta vida.
Bonhoeffer recusa aquele tipo de sermão que primeiro tenta comprovar o abandono do ouvinte para depois consolar o pobre pecador perdido com a salvação por Cristo.
Muito ao contrário, Bonhoeffer tem que experimentar, ele mesmo, que ele fica no presídio sem ajuda, sem salvação - etsi Deus non daretur - como se Deus não existisse, passando pela mesma experiência de Jesus na paixão, na cruz, na hora amarga da morte: "Eli, Eli, lama asabtani?" Na pessoa de Jesus ele reconhece Deus sem poder, sofrendo e ainda cheio de misericórdia junto aos outros. Assim Bonhoeffer percebe: Deus não ajuda com aquela omnipotentia (petrificada na dogmática), mas por meio de seu sofrimento.
Deus encontra-se mais próximo do homem secularizado do que do homo religiosus, que com sua religiosidade procura disfarçar sua falta de fé ou de confiança em Deus.
Jesus é o "homem para os outros", e não um objeto para uma vida religiosa no coração do crente ("religiöses Innenleben"), nem um objeto para ser celebrado nos ritos da Igreja. Por isso, também a própria Igreja só pode ser „Igreja para os outros".
Nos 10 anos decorridos entre a tomada do poder por Hitler e a detenção de Bonhoeffer, este, passo a passo, chegou a uma ética bem diferente da ética clássica protestante:
Não é licito que a igreja se aparte, segregue ou se isole dos acontecimentos políticos. No momento em que o Estado combate ou tenta liquidar valores fundamentais da ética, dos direitos gerais do homem, a Igreja tem que resistir, também como Igreja. Em situações extremas, a resistência cabe ao individuo, ao cristão individual, ao membro do corpo de Cristo.
Para a grande maioria dos pastores, esta maneira de intrometer-se em assuntos públicos, em questões políticas, era uma coisa muito estranha e até ilícita, proibida (Lembro-me das acusações contra Niemõller, depois da guerra! E também da posição do Sínodo Riograndense, durante o movimento da "Legalidade" nos tempos de Brizola, em 1961, quando visitei o presidente Gottschald exigindo que a Igreja lançasse uma palavra de apoio).
A raiz histórica dessa forma de separar os dois "remos", tão característica do protestantismo alemão antes e depois de 1933 - aqui a Igreja, lá o Estado , encontra-se no passado do luteranismo alemão. Acontece que a ética luterana concede ao Estado uma relativa "Eigengesetzlichkeit", quer dizer, o Estado tem que seguir as suas próprias leis sui generis, por exemplo quanto ao 511 mandamento: "Não matarásf (Lembro-me que, quando guri, possuía um catecismo no qual se encontrava a nota de rodapé: "Não vale na guerra" ("Gilt im Kriege nicht!").
Da mesma maneira, teólogos luteranos, que de um lado rejeitaram o afastamento de seus colegas pastores de origem israelita do ministério eclesiástico, do outro lado, justificaram as medidas do Estado nazista contra os judeus como defesa legítima da "pureza da raça germânico-ariana". Diz o professor Künneth: "Deve-se conceder ao Estado nacional o direito de considerar a questão do judeu como problema da nova estruturação da sociedade. A Igreja deve devidamente apoiar tal conscientização com referência ao caráter da peculiaridade étnica alemã em conformidade com a doutrina sobre a ordem de Deus, criador da raça e da etnia" (Walter Künneth, "Das Judenproblem und die Kirche", 1933).
Deve-se considerar que, na hora do afastamento de pastores por "defeito de raça", havia na "Associação de Pastores" (Pfarrernotbund) 6 mil pastores contra a "lei ariana". Bonhoeffer, todavia, achou razão para criticar a atitude da "Igreja Confessante": Esta se preocupava mais com coisas internas e teológicas do que com questões existenciais e politicas urgentíssimas: a "lei ariana", o racismo que explodiu na "Kristallnacht", em 1938, a introdução da pérfida lei que obrigava cada cidadão judeu a visivelmente portar na roupa a estrela de Davi, sinal da classificação de inimigo do povo alemão". Naquela ocasião Bonhoeffer disse com plena razão: "Só aquele que grita em defesa dos judeus tem o direito de entoar cânticos gregorianos!"
A „outra Igreja" - Annemarie Rübens (1900 - 1991)
Annemarie nasceu na Argentina e veio como menina com seus pais comerciantes à Alemanha. Ela estudou Teologia com o famoso professor Karl Barth. Como pastora col. (assistente) ela trabalhou na cidade de Colônia. O pastor orientador dela, Georg Fritze,foi ideológicamente um antigo socialdemocráta. No ano de 1933, quando o Hitler assumiu o comando da nação, Annemarie entrou em conflito com a comunidade evangélica de Colônia e com a direção da Igreja de Renânia
O motivo do conflito foi um culto vespertino em abril de 1933. Durante este culto, numa prece incluida na liturgia ela pediu Deus „pela vida e pelo futuro de nosso povo, por sua liberdade e por sua paz, especialment por todos os membros de nosso povo que estão sendo injustamente perseguidos" - obviamente os judeus, cada vez mais oprimidos pelos novos donos do país.
Em seu sermão Annemarie Rübens falou sobre a fráse de Jesus „Eu vim para pôr fogo na terra, e como eu gostaria que já estivesse queimando!" (Luc. 12,49) Com admirável coragem a jovem pastora disse, entre outras observações:
„Não é assim que Deus criou os povos e raças com suas diferêncas ? ... Sem dúvida somos permitidos de amar nosso sangue, nossa raça, nosso povo ... Nem o ódio contra compatrícios dissidentes, nem o ódio contra compatrícios de sangue-diferente, nem o ódio contra povos estrangeiros corresponde ao comportamenmto cristão ... O saudável pastor Blumhardt disse uma vez: „Temos que ter precaução perante um entusiasmo nacionalista; não somos apenas alemães , somos filhos de Deus!" A onda de ódio contra os considadãos livres de qualquer entiusiasmo nacionalista aumenta cada dia. Igualmente aumenta a onda de ódio contra os nossos compatrícios judaicos ... Que é que fazemos? Que é que deveriamos fazer?"
A pastora corajosa logo recebia um aviso claro da parte de um membro do presbitério, Franz Hagemann, que era promotor público na Justiça de Colônia. Ele ameaçou: „Mais um sermão deste tipo e você vai ser presa instantâneamente!"
As consequencias do „comportamento escandaloso" da jovem pastora colaboradora não demorraram:
18.7.1933 demissão pelo presbiterio da Paróoquia
15.9.1933 demissão pela Diretoria Eclesiástica Regional
17.11,1933 anulação da candidatura para um pastorado na Provincia de Renânia
Um dia depois do sermão da Annemarie sobre o escándalo da perseguição dos judeus na Alemanha, o superintendente geral pastor-presidente) Otto Dibelius em Berlin (que há tempo havia-se declarado „anti-semita") fez uma palestra pela radio-transmissora-nacional (Kurzwellensender des Deutschen Rundfunks) concedida pelo ministro de propaganda do Reino, Joseph Goebbels, e elogiou o „Terceiro Reino" de Hitler como „vencedor do socialismo e bolchevismo", apel ando ao povo alemão de ter confiança no „Führer" (Líder) e em sua política da „Entjudung" - „desjudificação" da Alemanha. (O termo de „desjudificação" - expressão malíssima e feiíssima - lembra de algo como „fumigação ...)
Para Hitler e Goebbels não havia dúvida alguma de que „no assunto dos judeus" eles podiam contar com a Igreja. (H. Prien, Der Verrat der Evangelischen Kirche an den Juden - Das Beispiel Köln) Como disse o pastor presidentr Ernst Stoltenhoff, (Evang. Kirche im Rheinland): „A Igreja não vai proteger ninguem que no contexto da „questão dos judeus" toma parte em prol dos judeus de maneira indifferenciada."
Quando Hermann Goering, em setembro de 1935, na ocasião do „Nürnberger „Reichsparteitag der Freiheit" (o „congresso da liberdade", concentração anual maior do partido nazista) proclamou as leis raciais de Nueremberg („Nürnberger Rassengesetze") ele disse: „A partir de agora a água do batismal eclesiástico não vale mais. Agora o que conta é o ságue ariano!" - Da gilt nicht mehr kirchliches Taufwasser. Ab jetzt zählt arisches Blut.
„Não é mais possível o judeu transformar-se em alemão pelo batismo. Por isso o judeu não tem mais lugar no meio da vida comunitária da Igreja Evangélica Alemã", disse o pastor Karl Köhler de Colônia.
Agrega-se desta maneira à traição dos judeus pela igreja a traição do sacramento do batismo pela Igreja Evangélica - „zum verrat der Kirche an den Juden gesellt sich von nun an der Verrat der evangelischen Kirche am Sakrament der Taufe." (Prien)
Annemarie Rübens escolheu o camingo da emigração, num primeiro passo rumo à Holânda, mais tarde, em 1936, depois do falecimento do irmão, ela viajou para Uruguay, onde, na Colônia Valdense, ela montou um asilo para crianças de antifacistas exilados da Europa, mais tarde inclusive para os filhos de presos políticos de Uruguay mesmo.
Falando da „outra Igreja", a gente deve lembrar também do „Propst" Heinrich Grüber, que inclusive foi preso político no campo de concentração de Dachau, porque repetidamente havia protestado.contra as deportações de judeus. Grüber foi encarregado como responsável do programa eclesiástico de assistência aos judeus batizados e consequentemente membros de comunidades evangélicas, que - devido às leis arianas de Nueremberg - tinham que ser considerados e tratados como judeus (como se pode ler num decreto na época emitido pela direção da Igreja Evangélica).
A assim chamada „Hilfsstelle Grüber" ou o „Büro Pfarrer Grüber" logo instalou dependências nas diferentes provincias, e tudo isso com o apoio formal da „Geheime Staatspolizei" - Gestapo - (o SNI nazista). Dessa ,maneira era possível, que ca. de 1.700 pessoas de descendencia judáica conseguiram de emigrar legalmente e de escapar do holocaust, da máquina de exterminação instalada pela SS poucos anos depois. Não demorrou muito até que a Gestapo fechou o „Büro Pfarrer Grüber" e não deu mais saída para os judeus que quase todos foram assassinados. Vergonha permanente para cada cidadão dessa nação
Conforme uma estatística „Juden in Deutschland" - Judeus na Alemanhs - publicada num prestigioso periódico protestante (Christl. Welt Juni 1932) era isto o respectivo quadro:
500.000 Judeus sem qualquer mistura e de religião mosáica
50.000 Judeus sem mistura e de religião „não-mosáica"
200.000 „Semijudeus" (mestiços „de primeiro gráu")
100.000 „mestiços judaicos-arianos" 2. gráu („Quartojudeus")
850.000 em total
CONCLUSÃO
Quando, em 1953, no lugar onde funcionou o horrível campo de concentração de Flossenbürg, inaugurou-se uma placa em memória de Bonhoeffer, que foi enforcado lá no dia 9 de abril de 1945, com 39 anos, o bispo da Igreja Evangélica Luterana de Bavária, Hans Meiser, não participou, alegando que Bonhoeffer não teria sido um mártir cristão, mas apenas um mártir político.
Venho de Nürnberg, cidade situada ao norte da Baviera, duas horas distante de Flossenbürg. Visitei o ex-campo de concentração, com vergonha e tristeza. Ocorre, porém, que não me incomodou a questão sofisticada, se Dietrich Bonhoeffer era um mártir cristão ou apenas um mártir político. O que, de fato, profundamente me perturbou, foram as questões:
• Como é possível que um ser humano possa cometer tamanhos erros e crimes como aqueles perpetuados no "Terceiro Reich"?
• Existe a possibilidade de que tais crimes se repitam - em qualquer lugar do mundo?
• Como foi possível que o povo da Reforma (e da Contra-Reforma) se deixou atrair por uma ideologia monstruosa como a nazista?
• Como se explica que os cristãos na Alemanha tenham colaborado com este regime ou pelo menos tenham permanecido calados?
• Pode-se desculpar a atitude dos cristãos com a exigência ou necessidade de "cumprir ordens"?
REFERÊNCIAS
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BUCHHEIM, Hans. Glaubenskrise im Dritten Reich. Drei Kapitel Nationalsozialistischer Rellgionspolitik, Stuttgart, 1953.
DIE CHRISTLICHE Welt. Protestantische Halbmonatsschrift für Gebildete alier Stiinde. Leopold Klotz Verlag Gotha (diverse Nummern aus den Jahrg, 1932/33).
HAFFNER, Sebastian. Von Bismarck zu Hitler, Em Rückblick. München, 1987.
HERMAN, Stewart W. Eure Seelen wolien wir. Kirche im Untergrund. München-Berlin, 1951.
HEUSS, Theodor. Friedrich Naumann. Der Mann, das Werk, die Zeit. Stuttgart-Berlin, 1937.
HOFER, Walther. Der Nationalsozialismus. Dokumente 1933-1945. Fischer Bücherei, 1960.
KÜNNETH, Walter. Das Judenproblem und die Kirche. 2. Aufi. Sept. 1933.
KUPISCH, Karl. Zwischen Idealismus und Massendemokratie. Eine Geschichte der evangelischen Kirche in Deutschland von 1815-1945. Berlin, 2. Aufi., 1959.
MANN Golo. Deutsche Geschichte, 1919-1945. Frankfurt, 1961. NOTHMANN, Walter. Der Irrweg der evangelischen Kirche. Berlin, 1930.
RATHJE, Johannes. Die Welt des Freien Protestantismus. Em Beitrag zur deutsch-evangelischen Geistesgeschichte, dargestellt an Leben und Werk von Martin Rade. Stuttgart, 1952.
SCHREY, Heinz-Horst. Dreissig Jahre Kirche und Staat in Deutschland, Die
Mitarbeit, Evangelische Monatshefte zur Gesellschaftspolitik, 12. Jahrg. Juli/August 1963.
As Décadas de 1930 e 1940 no Brasil
No dia 25 de janeiro de 1928 GetúlioDornelles Vargas assumiu a presidência do RGS, unificou a política do Estado, preparando os gaúchos de chegar à presidência da República. Estorou a Revolução: „Rio Grande de pé, pelo Brasil!"
Logo depois - 3 de outubro de 1930 - na estação ferroviária de Porto Alegre, iniciando a subida para o Rio, Vargas despediu-se dos gaúchos com ua frase: "Desta viajada, ou se volta com honra ou não se volta mais."
Vargas estava no poder desde 1930; um golpe como tantos outros, identificado como Revolução. No ano de 1926, aos 43 anos, deputado inteiramente desconhecido, Getúlio foi nomeado ministro da Fazenda pelo presidente Washington Luiz. Surpresa total. Em 1928, Washington Luiz fazia de Vargas presidente do Rio Grande do Sul. Em 1930, foi empossado como chefe do governo provisório. (24. 06. 2004 TI)
A segunda Revolução, em 1935, um fracasso total. Pretendia mudar o regime político e a representatividade popular ou direta. O objetivo econômico: a produção e distribuição da riqueza de forma inteiramente diferente: estadizada. Essa Revolução chefiada por Carlo Prestes - o Cavalheiro da Esperança - foi a grande motivação para Getulio Vargas criar o cruel e selvagem Estado Novo de 1937.
A ditadura de Vargas criou o famigerado DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda). Detinha três prerrogativas principais:
1) censurar jornais, revistas e emissoras de rádio (a televisão não existia),
2) promover o governo e
3) importar papel de imprensa, com monopólio assegurado por decreto-lei.
Se um jornal conseguisse burlar a censura e transmitir críticas ou denúncias, mesmo nas entrelinhas, seu proprietário era chamado ao gabinete do diretor do DIP.
Elegante, Lourival Fontes oferecia café e água gelada, sem tocar no assunto. Participava apenas o naufrágio do navio que trazia as bobinas para a empresa, condenada a ficar um mês sem papel. (Não há jornal capaz de agüentar um dia sem sua matéria-prima!)
O proprietário prometia punição aos responsáveis pela ofensa ao Estado Novo. Depois de vê-lo sofrer por muitos minutos, Lourival Fontes dizia existir uma solução: Podar fora da redação todos os comunistas ... (Carlos Chagas, TI 26. 01. 2006)
A Segunda República, (de 1930 a 1945) faz parte daquele surrealismo Brasileiro: ditadura-democrática ou democracia-ditatorial. (Hélio Fernandes, TI. 2.01.2006)
Nesta mesma época na Italia tomou posse o facismo do Duce Benito Mussolini,
na Espanha apareceu o Generalíssimo Francisco Franco,
e na Alemanha surgiu o nazismo do Führer Adolf Hitler.
Começou „das Zeitalter des Führerprinzips" - a época em que reinava o PRINCÍPIO DO „LÍDER POLÍTICO, experiência não apenas amarga para os povos na velha Europa, mas infernal para todo mundo, da Rússia até o Japão, da Etiópia até Tunesia, dos Estados Unidos até o Brasil, cujos soldados lutaram na Itália - na famosa batalha de Monte Casino - contra o exército alemão.
Era isso o contexto que re refleta também na história eclestástica moderna, antes de tudo na história da Igreja Evangélica da Alemanha no período das origens, do triunfo e da derrota do Nazismo.
PARA A GENTE SE ENTROSAR
Possuo um panfleto impresso na década de 30 do século XX, tempo de minha infância; publicação de uma facção chauvinista da Igreja Protestante, tratando do relatório sobre a Conferência Ecumênica em Estocolmo, de 1927:
"É com grande orgulho que certos líderes eclesiásticos contam aos membros de suas comunidades como, na ocasião da Conferência, sentiram-se muito felizes porque ficaram sentados junto a uma delegação chinesa ou ao lado de um negro." Em seguida o autor continua: "Tais líderes eclesiásticos não percebem que nós ficamos horrorizados ao sermos informados de que em Estocolmo justamente a um negro foi permitido falar do púlpito do qual na nossa gloriosa história o grande Schleiermacher se dirigia ao auditório."
Num formulário de aplicação para tornar-se membro da Associação para uma Igreja de CaráterAlemã o solicitante foi obrigado a declarar: "Juro que sou livre de sangue judaico como também de sangue misturado com gente de cor, e darei importância absoluta a todos os itens que se referem à cultura alemã, e sempre darei maior prioridade a estes itens do que a assuntos ligados com a Igreja."
Trabalho apresentado nas instituições. Seminário Batista Rio de Janeiro (18.8.03). Seminário Metodista Rio de Janeiro (19.8.03).
O Partido Nazista declarou como seu objetivo principal a cruzada contra o boichevismo, defefldendo - sem vínculo com uma determinada Igreja - um assim chamado "cristianismo positivo" (Os 25 itens do Programa do NSDAP, § 24). Nisso a maioria do povo, inclusive os-protestantes com seus pastores, os suportaram.
O "Movimento Cristãos Alemães" (Kirchenbewegung Deutsche Christen) exigiu: A cruz deve ser substituída pelo símbolo nosso, a suástica!
Disseram: "Na pessoa do Führer (líder) reconhecemos o Enviado por Deus (Messias), que põe a Alemanha perante o Senhor da História, e chama-nos do culto dos fariseus e levitas ao sagrado serviço do samaritano" (Leffler cf. Hans Buchheim, Glaubenskrise im Dritten Reich, 1953, p. 51).
E ainda: "Esperamos que a nossa Igreja como Igreja do Povo se liber-te de tudo que não seja de caráter alemão no culto e no credo, antes de tudo do Antigo Testamento e sua moral recompensadora (Lohnmoral)."
Era assim que se pensava em grande parte da Igreja Protestante durante a minha infância.
A ALEMANHA NAZISTA
O nazismo formou-se nos anos de pós-guerra (1919 - 1933), e tem uma pré-história:
a) o Tratado de Paz (Friedensvertrag) de Versalhes...
Muito ao contrário do trato aplicado ao povo alemão nas zonas ocupadas pelos americanos, ingleses e franceses, em que logo depois da derrota do Terceiro Reich um plano de apoio econômico, o Plano Marshall, contribuiu para estabilizar a economia e com isso também a jovem democracia, depois da 1a Guerra Mundial o "Tratado de Paz" de Versalhes evitou a recuperação econômica do país e prejudicou também a evolução de um clima democrático na Alemanha. Houve, inclusive, a crise econômica mundial, uma inflação louca e uma fase de desemprego para se desesperar.
b) a falta de experiência democrática
As igrejas protestantes naquela época eram tanto "da direita como hoje são "da esquerda". Uma das razões do sucesso do nazismo foi a recusa da República pelas igrejas, pela indústria, pela classe média, que em última análise seguiram uma orientação monarquista (Sebastian Haffner, Von Bismarck zu Hitler, 1987, p. 208). E a juventude de orientação neoconservadora, sonhava com o "Terceiro Reino" - Drittes Reich" - de um Império Alemão ressuscitado.
A República de Weimar (1919-1933) foi uma democracia não desejada, "uma democracia sem democratas".
Permitem-me relembrar um aspecto da minha própria infância e juventude:
A creche, o jardim, a igreja, a escola, tudo isso na minha infância e juventude serviu como veículo da ideologia nazista. Fomos maltratados até o limite de nossa capacidade de absorver tudo isso, com coisas germânicas, obediência prussiano-militar, cujo valor máximo era a honra, a fidelidade, a obediência, a luta e a vitória. Nas aulas de Alemão, de História e de Geografia encheram-nos com a ideologia que emerge do slogan "um povo, um reino, um líder" e nos ensinaram devotamento à pátria, disposição para sacrificar-nos, camaradagem, solidariedade para com o nosso povo germânico, fidelidade ao credo da excelência de sangue e terra da pátria ("Blut und Boden"), e tudo com o mesmo fanatismo como o conhecemos hoje em dia do exemplo dos mullahs e aiatolás do mundo oriental. Escola, igreja, casa e "Hitlerjugend" (algo equivalente aos "Jovens Pioneiros" dos Stalinistas) exageraram para criar entre nós a mentalidade guerreira, a técnica da luta para os futuros defensores da pátria amada. Tampouco faltaram os jornais, livros e cadernos que nos deram exemplos impressionantes do ódio contra todos os nossos inimigos, antes de tudo os judeus.
A gente se criou com canções marciais nos lábios:
Blutig rot sind unsre Fahnen
Nossas bandeiras, vermelhas como o sangue
nos abrem o caminho que leva a liberdade.
As brigadas da Juventude de Hitler
derrotam as barricadas soviéticas.
Camarada, aperta minha mão,
nossa escravidão chegou ao fim.
Judeus choramingam,
cabeças rolam ao chão,
a Juventude de Hitler avança,
marxistas na parede!
Assim, os socialistas nacionais
lutam pela pátria.
Der Gott, der Eísen wachsen líess:
O Deus que fez crescer o ferro
não desejou possuir escravos.
Por isso ele colocou sabre, espada e lança
na mão direita do homem.
Por isso nos deu a coragem feroz
e a raiva da livre palavra,
a fim de que na batalha resistissemos
sacrificando nosso sangue, até a morte.
Morgenrot, Morgenrot
Aurora, aurora,
dá seu brilho até a morte iminente.
Logo vai soprar a trompete,
então vou ter que sacrificar minha vida,
eu e alguns dos camaradas.
Ficamos acostumados à morte pela pátria muito cedo já!
Quando, em julho de 1944, faltavam apenas nove meses até a derrota da Alemanha nazista pelos aliados, fui confirmado na igreja luterana, recebia uma certidão de confirmação ilustrada com um quadro de Arthur Kampf, com o título: Bênção dos Voluntários da Pátria. Nós, rapazes de 14 anos, a última reserva para a defesa da pátria, recebemos a bênção da Igreja para vencer ou morrer!
Devia completar o quadro sociopsicológico da realidade alemã nos anos de Hitler por mais um aspecto:
Parece-me que - entre outros fatores históricos e psicológicos que marcaram o comportamento do povo alemão - havia, antes de tudo, dois fatores determinantes que mais pesaram na constelação política, social e econômica após a 1a Guerra Mundial: a experiência imperial e a doutrina da superioridade da raça germânica:
• A raça germânica, em primeiro lugar o povo alemão, é superior às demais raças; por isso a Alemanha deve assumir a liderança entre todas as nações do mundo.
• A pior raça e o maior inimigo do povo alemão é o povo judeu.
• Todos os membros do povo alemão - não importa onde estejam - devem viver no país da Grã-Alemanha ("Grossdeutsches Reich") e exercer a hegemonia sobre o resto da humanidade.
• Para conseguir isso, deve-se substituir a democracia por um Estado autoritário com um forte líder carismático que dispõe de poder ilimitado: "Um povo, um império, um líder!"
Quando Hitler, em 1921 assumiu a direção do Partido Nazista (NSDAP), ele formou organizações paramilitares como a SA e a SS, instrumentos de perseguição e opressão dos adversários políticos, antes de tudo os comunistas e social-democratas.
No mês de setembro de 1930 o número de deputados nazistas no Parlamento aumentou de 12 para 107. Passaram-se apenas mais dois anos, e a bancada dos camisas-marrons tinham conseguido tornar-se o partido da maioria, com 230 deputados. Poderíamos dizer que os nazistas deviam esta vitória esmagadora à Igreja cuja orientaçãõ, majoritariamente, era em favor da direita. Foi um pastor evangélico que disse em 1931: „Reconhecemos no nacional-socialismo o movimento de libertação da Alemanha. Somos obrigados a aderir a este movimento, e seja este liderado até em nome do próprio diabo!"
Nas eleições de 1933 Hitler recebeu 51% dos votos e foi indicado Chanceler. Depois do incêndio do Parlamento (Reichstag), em 27.2.1933, o Parlamento com uma maioria nazista e simpatizanie concedeu-lhe um prazo de 5 anos para governar à base de decretos de emergência (Notverordnung zum Schutz des Reiches) sem convocar o Parlamento, período suficiente para montar uma das mais severas ditaduras do mundo, com a ditadura do único partido (NSDAP), com um SNI sem precedentes, com campos de concentração (KZ) que se tornaram máquinas de assassínio.
O resultado dos 12 anos de regime nazista foi uma hecatombe de pelo menos 50 milhões de mortos em todo o mundo, inclusive 6 milhões de judeus assassinados!
O COMPORTAMENTO DE DISTINTOS SETORES DA IGREJA
Vis-à-vis de um sistema brutalmente ditatorial, a posição dos cristãos - católicos e evangélicos - era bastante ambivalente. É por isso que a gente deve cuidar de desenhar um quadro estritamente preto e branco. Criou-se uma "Lenda em torno da Resistência da Igreja contra um Estado Totalitário" que diz: Houve na Igreja desde o início do Nazismo dois grupos bem definidos: de um lado havia aqueles que logo apoiaram a ideologia nazista, antes de tudo os membros do "Movimento Cristãos Alemães" (DC). No lado oposto havia um pequeno grupo de fiéis, firmes na crença com base no evangelho, decididamente contrários à ideologia de Hitler e totalmente contra a nomeação do capelão militar Ludwig Müller para a função de um "Reichsbischof - bispo do reino , ou seja, um bispo primário e autoritário de uma Igreja Germânica do Império Nazista.
Conforme esta "Lenda em torno da Resistência da Igreja contra um Estado Totalitário" aquele pequeno grupo de fiéis contrários à ideologia de Hitler congregou-se desde o início ao redor do E Martin Niemdller e do professor Karl Barth, fundadores da assim chamada "Igreja Confessante" (BK).
Para percebermos o background político que a partir de 1933 levou ao movimento evangélico de resistência ao nazismo, é importante lembrar em primeiro lugar do fato de que a grande maioria dos pastores provinha de um ambiente de um nacionalismo quase sagrado. Disse Karl Kupisch: "A derrota de 1918 tornou-se o ponto de partida de um novo nacionalismo, que se refletiu também no campo da igreja" (Zwischen Idealismus und Massendemokratie,1959). Os pastores, em sua grande maioria, consideravam-se patriotas e assim se comportaram. Eles haviam se criado na monarquia prussiana, por isso não conseguiram conformar-se com a república que encerrou o Império do "Kaiser" Wilhelm II, que fugiu para a Holanda. Sobreviveu um nacionalismo tremendo. É por isso que o tom de um profundo patriotismo no discurso de Hitler tanto estimulou a simpatia do povo junto ao fenômeno do Nazismo. No início do "Terceiro Reich" até Martin Niemiller, um dos fundadores da "Igreja Confessante" (BK) deixou-se atrair pelo nacionalismo de Hitler. E não apenas ele!
Um exemplo típico para o clima político nos anos do advento de Hitler foi o assassinato do ministro de Assuntos Exteriores Rathenau, em 1922. Martin Rade, editor da revista "Christliche Welt" órgão do Liberalismo teológico — no necrológio em nome da Universidade de Marburg, mencionou duas razões que obviamente deveriam ter levado ao crime fatal: 1) Rathenau era judeu; 2) como ministro ele correspondia de maneira positiva com o resto do mundo. Foi isso que o liquidou! O orador liberal rejeitou o antisemitismo nutrido pelos inimigos da república, constatando que este racismo bobo jamais correspondia com o caráter do povo dos poetas e filósofos, como no exterior muitas vezes se havia caracterizado os alemães.
Não pode haver dúvida, porém, de que foi um nacionalismo quase divinizado que definitivamente preparou a ascensão do nazismo no meio da Igreja evangélica.
Havia uma herança ideológica, que fortemente marcou a "alma" do povo: há muito tempo, pelo menos há um século, alguns românticos alimentaram o latente sonho de uma religião germanizante para todos os alemães. Entre tais sonhadores estava o orientalista Paul de Lagarde, nascido em 1827. Diante de uma empírica desunião ou fragmentação religiosa da população, ele imaginava uma religião especffica da própria raça - eine "arteigene" Religion - uma religião realmente adequada ao povo alemão. Nesse aspecto ele não pensava tanto na raça, como se poderia suspeitar; ele foi anti-semita como muitos intelectuais no Ocidente, desde a destruição de Jerusalém, mas foi justamente ele que observou: "A raça tem um papel apenas em relação aos cavalos, ao gado e às ovelhas!"
Sob a forte influência do autor inglês Houston Stewart Chamberlain, que vivia e publicava na Alemanha, fundou-se em 1922 a "União em prol de uma Igreja Alemã". Um dos fundadores introduziu em 1913 a expressão "Deutschchristentum" - Cristianismo Alemão. Em 1917 foi editado um livrinho sob o título: "Cristianismo Alemão conforme puros princípios evangélicos" - "Deutschchristentum auf rein evangelischer Grundlage".
Mais tarde esta "União em prol de uma Igreja Alemã" desembocou no "Movimento Cristãos Alemães"- "Glaubensbewegung Deutsche Christen" (DC). Quer dizer a ideologia acerca de um "Cristianismo Alemão" existia há muito tempo antes do advento do nazismo; existia em círculos sectários da Igreja evangélica, antes de tudo entre pessoas de pouca cultura ou educação deficiente.
No ano de 1931 encontramos na revista "Christlichen Welt" uma interessante análise do nazismo, de autoria de Hans E. Friedrich:
„As pré-condições do nacional-socialismo podem ser reduzidas a dois termos: Primeira guerra mundial e crise do capitalismo." Na época havia sob o ponto de vista sociológico os seguintes grupos de eleitores: 1) Oficiais reformados do exército; 2) uma juventude predisposta para aderir a uma ideologia de obstrução; 3) uma pequena burguesia desamparada; 4) um segmento do proletariado simpatizando com o ambiente da pequena burguesia; 5) muita gente desclassificada devido à catastrófica situação econômica do pais; 6) gente moralmente indignada e irritada; e 7) milhares de pessoas carentes da capacidade de desenvolver critérios políticos, apenas cheias de saudade dos gloriosos tempos do período anteguerra. O nazismo como tal consiste conforme Hans E. Friedrich, de quatro características essenciais, a saber: 1) agitação grosseira; 2) uma ideologia nitidamente nacionalista; 3) o anti-semitismo, e 4) a tática latente do partido.
Martin Rade constata uma idéia essencial no pensamento de Hitler: o dogma do anti-semitismo. Quando Hitler falou do marxismo, este termo era para ele apenas um siogan, sinônimo de pacifismo, judaísmo e traição da pátria. Disse Rade: "Se na história jamais foi promulgado e aceito um dogma sem qualquer critica, então era aquele do anti-semitismo."
Em seu livro "Minha Luta" Hitler revela claramente seus motivos fundamentais, quando diz que para a salvação do povo alemão e da pátria, e até para a salvação do mundo inteiro, pode figurar apenas um objetivo, um dever sagrado, que visa à exterminaç&) dos judeus e dos criminosos, que após a guerra destruíram o Reino da Alemanha (Rade).
Foi esta uma descrição do background ideológico-político-religioso em termos gerais, a fim de que pudéssemos entender o desenvolvimento que levou ao movimento eclesiástico de resistência ao Estado absoluto.
No início do Terceiro Reich existia uma linha divisória que dividia o povo e inclusive os membros da Igreja em duas partes: aqueles que se tornaram excitados pela êxtase sugestiva gerada por este orador carismático que era Hitler e logo o consideraram o salvador da pátria oprimida pelos vitoriosos na guerra de 1914-1918: e, no outro lado havia aqueles que desde logo desconfiaram do ambiente messiânico criado pelos nazistas, e que por isso tornaram-se imunizados contra o nacional-socialismo.
Poder-se-ia afirmar: os principais adversários do nazismo eram antes de tudo pessoas cultas, que devido a conceitos e princípios políticos, filosóficos e também ético-teológicos rejeitaram qualquer colaboração com o regime de Hitler. Cito aqui apenas dois nomes conhecidos que representam esta espécie de adversários "natos": Karl Barth e Paul Tillich, representantes da esquerda socialista entre os teólogos da época.
No ano de 1933 também Dietrich Bonhoeffer era conhecido entre seus amigos como adversário do nazismo. Entre os luteranos foi Hanns Lilje, que na Igreja se destacou como adversário das idéias nazistas. Ele também foi preso pela Gestapo, o SNI da ditadura nazista.
A IGREJA CONFESSANTE
Hoje todo mundo sabe: Hitler tolerava a religião por motivos meramente oportunistas. Assim ele resolvia utilizar a Igreja Evangélica como um instrumento de sua política, antes de tudo de sua política cultural, de sua politica interna, que lida com os assuntos interiores, e Hitler queria utilizar a Igreja Evangélica especialmente como instrumento de sua política racizfl. O professor liberal Weinel observou com toda razão que os nazistas pretendiam fazer da Igreja apenas um departamento do Ministério de Propaganda.
Os nazistas perceberam logo que a Igreja Evangélica poderia servir como um instrumento de propaganda de suas idéias. Foi por isso que o partido tanto se empenhou na organização de um "Movimento Cristãos Alemães" (DE), liderado por P. Joachim Hossenfelder, de Berlim, que chamou9 "Movimento Cristãos Alemães" de "SA de Cristo". Quando se cogitava introduzir a expressão "nacional-socialistas evangélicos" para esta "filial do fascismo", o "Führer" Adolf Hitler não concordou, alegando: "Uma igreja alemã, um cristianismo alemão é bobagem. Ou a gente é cristão ou alemão. Ambas as coisas não é possível." Hitler apenas utilizou a Igreja por motivos táticos, e só por um periodo limitado, como imaginava. Depois da guerra ele planejava liquidar todas as igrejas, substituindo-as por um culto germânico.
Nos estatutos do "Movimento Cristãos Alemães" constava: "Apoiamos uma fé em Cristo que seja apropriada ao caráter especifico de nosso povo. Consideramos a raça, a nacionalidade e a nação preciosos presentes e manifestações da ordem do Criador. Cumpre-nos preservar o que recebemos como a lei de Deus. Por isso temos que combater a miscigenação das raças. Também solicitamos que o nosso povo seja protegido da proliferação de pessoas ineptas e inferiores. Casamentos entre alemães e judeus devem ser proibidos."
Quando Hitler assumiu o poder em 1933 tornou-se óbvia a tentativa da incorporação das 28 igrejas territoriais evangélicas (Landeskirchen) ao sistema ideológico nazista. O governo nazista planejava a construção de uma só igreja, uma Igreja alemã nazista. Esta manobra não deu certo, pois ficou apenas uma minoria de pastores e comunidades que se incorporaram à "Reichskirche" - Igreja do Reino que pretendia ser a "Igreja germânico-ariana do Império Alemão". Na ocasião do Sínodo Nacional da Igreja Evangélica Alemã, dia 27/9/1933, na cidade de Wittenberg, o capelão do exército Ludwig Müller elegeu-se Bispo do Reino (Reichsbischof. Nas eleições periódicas de presbíteros muitos nazistas se elegeram, subvertendo deste modo as estruturas das comunidades e da administração eclesiástica. A "Igreja Confessante" (BK), porém, resistiu às pressões do governo e mostrou-se firme na defesa da fé e dos tradicionais valores éticos.
Quando por meio do "Arierparagraph" (lei ariana) o governo exigiu o afastamento de pastores de origem judaica ou casados com mulheres não-arianas ou semi-arianas, o pastor Martin Niemöller (ex-comandante de um navio submarino) que nos anos anteriores tinha até apoiado o nazismo, tornou-se o inspirador e porta-voz da Igreja Confessante, porém foi preso em 1938 até que os americanos o libertaram em 1945 (Golo Mann, Deutsche Geschichte 1919 -1945, 1961, p. 115). A Igreja Unida da Prússia (APU) aceitou a infame "lei ariana" por 132 contra 48 votos.
A posição dos liberais em redor de Martin Rade quanto ao mito nazista acerca da importância quase-religiosa da pureza da sangue foi muito clara: „Quem acredita o própria sangue como a mais importante fonte da revelação, a priori não pode ser cristão."
Por pressões internacionais, no dia 25 de janeiro de 1934 Hitler recebeu os representantes da Igreja Evangélica liderados pelo "bispo fantoche", o "Reichsbischof" Müller, e o porta-voz da oposição dentro da Igreja, o pastor Niemõller. Na ocasião Gõring leu o teor de uma conversa telefônica de Niemöller gravada pela „Gestapo" (SNI) na mesma manhã. Aí a posição de Niemöller tornou-se quase nula (Barbara Beuys, Vergesst uns nicht, 1990, p.225).
O resultado do encontro com o "Führer" foi este:
Já dois dias depois a maioria da oposição protestante assinou um documento em favor de uma Igreja Nacional: "Sob a impressão do momento histórico do encontro com o Chanceler do Reino os líderes da Igreja Evangélica Alemã afirmam com unanimidade sua fidelidade ao Terceiro Reich e seu líder. Eles condenam nitidamente todas as maquinações de critica contra o Estado, o povo e o Movimento da Ressurreição Nacional. Os lideres eclesiásticos unanimemente apóiam o Reichsbischof, decididos a efetivar as disposições e os decretos por ele providenciados."
Logo cerca de 1.500 pastores quitaram o Pfarrernotbund (Associação de Emergência para Pastores) - que foi o embrião da Igreja Confessante -, solidarizando-se assim com seus chefes que apoiaram a política da Igreja Nacional suportada pelo governo nazista, pensando que desta maneira ajudariam a manter a paz e a unidade da Igreja Protestante.
Niemólier, que não assinara a carta de compromisso, declarou numa mensagem dirigida ao bispo da Igreja de Hamburgo: "Estamos perplexos e profundamente comovidos, pois registramos uma completa renúncia da verdade do evangelho e um abandono da Igreja." Imediatamente depois Niemi$ller sofreu uma série de represálias: policiais invadiram sua casa paroquial e levaram os papéis do "Pfarrernotbund" (Associação de Emergência para Pastores); tentou-se (em vão) seu afastamento do pastorado, etc.
O governo, porém, lançou uma comunicação afirmando que os lideres da Igreja Evangélica Alemã liderada pelo Reichsbischof Ludwig Muiler, em recepção solene no gabinete do Chanceler Adolf Hitler, expressaram seu pleno apoio ao "Führer".
Foi este o momento em que de fato surgiu a "Igreja Confessante".
A LUTA DA IGREJA CONTRA UM ESTADO ABSOLUTO
O evento mais marcante na história da Igreja Confessante foi a "Declaração de Barmen", elaborada por Karl Barth e ratificada pelos 139 representantes de 18 igrejas regionais luteranas, reformadas e "unidas" no Sínodo que se reuniu em maio de 1934 na cidade de Barmen.
A mensagem do encontro foi:
O lugar da cruz suástica não deve ser ao lado da cruz de Cristo, nem deve ser idêntica com a cruz ou até substituindo-a, mas somente debaixo da cruz de Cristo.
O Sínodo expressa-se incondicionalmente pelo mantimento da fé herdada sem qualquer acréscimo de elementos germano-nazistas. Ele confessa que a unidade das igrejas evangélicas na Alemanha pode resultar exclusiva-mente da fé na palavra de Deus.
Tudo isso foi explicado em seis parágrafos, que mais ou menos declaram:
1. Confirma-se que Cristo seja a única fonte de revelação; por isso rejeita-se a falsa doutrina que admite outros acontecimentos ou poderes como fundamento da pregação.
2. Confirma-se que a oferta e exigência de Cristo não se refere apenas à vida religiosa nos cultos da igreja, mas à vida inteira do cristão; por isso rejeita-se a falsa doutrina que admite que fora disso haja ainda outros setores aos quais o cristão deva obedecer e servir.
3. Confirma-se que a Igreja é a congregação de irmãos na qual Cristo pelo verbo e pelos sacramentos é presente; por isso rejeita-se a falsa doutrina que admite que seja permitida à Igreja cada vez assimilar a sua mensagem e a sua ordem às respectivas ideologias predominantes em determinadas épocas.
4. Confirma-se que os dirigentes da Igreja - presbíteros, pastores e bispos - não são donos, mas servos da comunidade; por isso rejeita-se a falsa doutrina que defende na Igreja um sistema de liderança autoritária semelhante ao sistema de liderança no Estado absoluto.
5. Confirma-se e reconhece-se que devido à ordem estabelecida por Deus, seja a incumbência do Estado zelar pela ordem, justiça e paz entre o povo; rejeita-se, porém, a falsa doutrina que admite que o Estado deveria tornar-se a única e totalitária instância ideológica para cada um de seus cidadãos.
6. Confirma-se que a Igreja, em plena liberdade, por ordem e em nome do Senhor, deve divulgar a palavra de Deus e administrar os sacramentos; por isso rejeita-se a falsa doutrina que exige a subordinação da Igreja aos interesses do Estado.
Nos anos seguintes de 1935 a 1937 - a repressão à Igreja Confessante por parte do Estado aumentou.
Formou-se também a resistência. Os pastores fiéis à Igreja Confessante exigiram: Nossa posição junto ao "Reichsbischof deve ser:
„Devemos obedecer a Deus e nõo aos homens" (Act. 5, 29) e "Dêem ao Imperador o que é do Imperador, e a Deus o que é de Deus" (Mt. 22, 21).
No dia da instalação solene do bispo Müller, em Berlim, a cidade mostrou-se vermelha devido a tantas bandeiras com o símbolo da suástica. Acontece, porém, que nenhum dos bispos e líderes da Igreja dos tempos antes de Hitler estava presente no culto de ordenação do novo bispo. Dominaram as bandeiras nazistas e os destacamentos da SA em camisas de cor marrom.
No resto do país, porém, as igrejas estavam superlotadas nesse horário. As comunidades oraram por um cristianismo verdadeiro, então ameaçado por falsas doutrinas (Stewart W. Herman, Eure Seelen wolien wir, Kirche im Untergrund, München, 1951).
O PAPEL TEOLÓGICO DE DIETRICH BONHOEFFER
a) Uma exposição sumária da vida de Bonhoeffer
* 4.2.1906 (Breslau) + 8.2.1945 (Flossenbürg)
Era filho de uma família de classe média alta: o pai: professor e psiquiatra, a mãe: professora (8 filhos).
1923, Universidades de Tübingen e Berlin, onde estuda Teologia;
1924, uma estada em Roma (Páscoa: bênção papal aurbi et orbi")
Contatos ecumênicos, relação com Karl Barth (visão crítica do comportamento da Igreja!).
1927, com 21 anos, Doutorado ("Sanctorum Communio )
1928, Pastor assistente na Comunidade Alemã de Barcelona.
1930, docente na Universidade de Berlim (com 24 anos).
l. ano Union Theological Seminary N. Y. / excursão para Cuba.
No convívio com negros e latinos torna-se anti-racista e pacifista.
1.2.1933, palestra radiofônica criticando o movimento nazista (desligada!)
Bonhoeffer, não encontrando mais o ambiente desejado na Igreja de Berlim, assume o pastorado na Comunidade alemã em Hill, Inglaterra (17.10.1933).
1935, Bonhoeffer volta da Inglaterra para a Alemanha e assume a direção do Seminário (ilegal) de pregadores da Igreja Confessante em Finkenwalde.
1936, O Seminário faz uma viagem de estudos à Suécia.
1937, a Gestapo (SNI) fecha o Seminário ilegal; Bonhoeffer visita Nova York.
9.11.1938: „Kristallnacht" quando os nazistas incendiaram centenas de sinagogas no país e deportaram 35 mil judeus para campos de concentração.
Devo aqui incluir uma importante observação:
Cresci durante os anos da ditadura nazista, percebendo as poucas coisas que uma criança ou um adolescente enxerga dos feitos políticos que acontecem ao redor dela. Mais tarde, quando estudei a história eclesiástica contemporânea, tomei conhecimento do fato de que Igrejas regionais inteiras ("Landeskirchen") covardemente se subjugaram à ideologia nazista. A prova mais penosa neste contexto é o fato de que os consistórios destas Igrejas sequer moveram um dedo para defender seus próprios membros, irmãos não-arianos, fiéis protestantes, mas agora chamados de "judeus", contra as agressões e crimes do governo nazista. As diretorias das Igrejas regionais até ajudaram ativamente na "arianização" ou "de-judificação" da sociedade alemã, por exemplo pela deposição de pastores de descendência israelita, como ocorreu na Igreja de Westfália com o pastor da cidade de Bochum, Dr. Hans Ehrenfeld, cuja filha está casada com meu colega e amigo Dr. John, Principal do United Theeological Coilege in Bangalore, Índia. Os dois me visitaram um dia no campus da Obra Ecumênica de Estudos em Bochum e me contaram muitos detalhes das ocorrências.
Hans Ehrenfeld nasceu em 1883 em Hamburg, filho de pais judeus. Ele fez o Doutorado na área das Ciências Políticas e Econômicas, como também de Filosofia e Psicologia e tornou-se professor de Filosofia na Universidade de Heidelberg, dedicando-se preferencialmente a Hegel e Kant. Durante a 1 Guerra Mundial, fez seu serviço militar no exército alemão. Com 26 anos, ainda antes da guerra, foi batizado. Após a guerra estudou Teologia, foi ordenado pastor em 1925, e instalado na comunidade de Bochum. Em 1933 começou a perseguição sistemática dos judeus. As leis de Nürnberg proibiam qualquer atividade de judeus em cargos públicos, inclusive na Igreja. Em 1937 a Igreja de Westfália aposentou o pastor Ehrenfeld. No dia 9 de novembro de 1938, na assim chamada "Kristallnacht", noite de pogrom organizado em todo território nacional, os nazistas destruíram também a sinagoga de Bochum, queimando-a. Na ausência de Dr. Ehrenfeld, destruíram o apartamento dele, jogando os móveis fora pela janela. Quando ele voltou, foi preso e deportado ao campo de concentração em Oranienburg. Devido às boas relações internacionais de Ehrenfeld, foi posto em liberdade e autorizado a emigrar para Inglaterra. Em 1947 ele voltou para a Alemanha, onde a Igreja de Westfália o incumbiu com atividades no campo das relações públicas. Faleceu em 1958 em Heidelberg. Uma história vergonhosa!
Voltando ao currículo de Bonhoeffer, cabe-nos mencionar:
1939, ele aceitou um convite para dar preleções em N.Y. a fim de evitar o serviço militar na Alemanha, mas quando tudo indica o começo de uma guerra contra a Polônia, Bonhoeffer volta à Alemanha, para estar perto dos acontecimentos. Ele continua organizando "Sammelvikariate", cursos teológicos intensivos para o treinamento de pastores, atividade proibida em 1940.
1940, Bonhoeffer trabalha para a "Contra-Inteligência do Exército", que de fato conspirou contra Hitler (Almirante Canaris).
5.4.1943, foi o dia de sua prisão, motivada por suas tendências pacifistas (Berlin-Tegel).
20.7.1944,atentado contra Hitler; prisão dos autores e inspiradores; certos documentos envolvem Bonhoeffer na conspiração, inclusive na alta traição, crimes normalmente castigados com a pena capital.
8. 10. 1944, transferência para a prisão do SNI em Berlim. O Tribunal Popular de Freisler começa a liquidar cerca de 5 mil pessoas culpadas ou suspeitas. Bonhoeffer é transferido ao campo de concentração de Buchenwald
8.4.1945, chegada no Campo de Concentração Flossenbürg; Bonhoeffer é enforcado, com 39 anos de idade.
Dia 30.4.1945, Hitler suicidou-se e logo depois, dia 8.5.1945, ocorre a capitulação.
O papel teológico de Dietrich Bonhoeffer
Em primeiro lugar: em meu entendimento a teologia de Bonhoeffer dá uma impressão bastante contraditória, pelo menos pode-se constatar duas fases radicalmente distintas uma da outra:
O primeiro período está marcado por uma teologia muito conservadora, mas há exceções. Como milhares de outros teólogos protestantes, ele pôde dizer que a "ética é uma coisa do sangue e da história". Partindo de uma posição nacional-conservadora, ele não hesitou em distinguir entre uma "ética alemã, uma ética francesa e uma ética americana." Negou a existência de uma ética geral para todos os homens do mundo. Reconhece apenas uma ética utilitarista, dizendo: "Estou pronto para proteger meu irmão, minha mãe, meu povo, apesar de que estou completamente ciente de que isso seja possível apenas com derramamento de sangue. Mas o amor à pátria santificará o assassinato e a guerra." - Passo a passo, porém, o jovem teólogo Bonhoeffer, que em 1928, durante seu vicariado em Barcelona, fala assim, transforma-se em um cristão que, no púlpito como na cátedra, aprende a fazer uso da teologia, sem que esta disciplina seja a norma normans para sua existência perante Deus e os homens. Ser relacionado a Cristo torna-se mais importante para Bonhoeffer do que ser alemão.
Num segundo período Bonhoeffer se destaca por uma Teologia de caráter libertador e existencialista. A partir de então ele defende uma ética ecumênica de paz. Pouco a pouco o cristão Bonhoeffer evoluiu para um personagem contemporâneo, assumindo a responsabilidade do cristão emancipado para com a sociedade exterior e para com o mundo que o cercava (cf. Karl Martin, Ich miichte glauben lernen, Wandlungsprozesse in der Biographie Dietrich Bonhoeffers, Dtsch. Pfarrerblatt 5/2005). E na prisão, nos 18 meses de solidão, ele começa a descobrir o cristão maduro ("mündig"), que alcançou sua maioridade como pessoa e sua autonomia como ser humano que - libertado pelo evangelho - responde apenas ao Senhor.
Bonhoeffer descobriu que o mundo estava cheio de tais pessoas de maioridade, e muitas vezes pessoas que careciam daquela religiosidade que os padres e pastores durante quase dois mil anos defendiam como essencial para a salvação (eterna). Vis-à-vis desta realidade, Bonhoeffer deduziu que seria adequado e necessário alcançar esta gente que carecia da religiosidade "clássica" com uma proclamação não-religiosa da palavra de Deus ("nichtreligióse Verkündigung"). Sua leitura da Bíblia tornou-se diferente daquela praticada anteriormente. Agora as palavras bíblicas revelam a realidade em que ele se encontra, e não narra mais coisas e assuntos de tempos passados. "Águas passadas não movem moinhos", se diz. Trata-se justamente da leitura descoberta novamente pela "Teologia de Ubertação". Boff antecipado!
Nossa abordagem do homem moderno e emancipado deve ter um caráter não-religioso, porque Deus quer encontrar o homem de maioridade não apenas em seus sonhos ou desejos relacionados com suas eventuais idéias religiosas dirigidas aos aspectos que possa ter no além desta vida, mas Ele quer encontrar o homem bem no meio de sua vida de dia a dia, neste mundo, nesta realidade, nesta vida.
Bonhoeffer recusa aquele tipo de sermão que primeiro tenta comprovar o abandono do ouvinte para depois consolar o pobre pecador perdido com a salvação por Cristo.
Muito ao contrário, Bonhoeffer tem que experimentar, ele mesmo, que ele fica no presídio sem ajuda, sem salvação - etsi Deus non daretur - como se Deus não existisse, passando pela mesma experiência de Jesus na paixão, na cruz, na hora amarga da morte: "Eli, Eli, lama asabtani?" Na pessoa de Jesus ele reconhece Deus sem poder, sofrendo e ainda cheio de misericórdia junto aos outros. Assim Bonhoeffer percebe: Deus não ajuda com aquela omnipotentia (petrificada na dogmática), mas por meio de seu sofrimento.
Deus encontra-se mais próximo do homem secularizado do que do homo religiosus, que com sua religiosidade procura disfarçar sua falta de fé ou de confiança em Deus.
Jesus é o "homem para os outros", e não um objeto para uma vida religiosa no coração do crente ("religiöses Innenleben"), nem um objeto para ser celebrado nos ritos da Igreja. Por isso, também a própria Igreja só pode ser „Igreja para os outros".
Nos 10 anos decorridos entre a tomada do poder por Hitler e a detenção de Bonhoeffer, este, passo a passo, chegou a uma ética bem diferente da ética clássica protestante:
Não é licito que a igreja se aparte, segregue ou se isole dos acontecimentos políticos. No momento em que o Estado combate ou tenta liquidar valores fundamentais da ética, dos direitos gerais do homem, a Igreja tem que resistir, também como Igreja. Em situações extremas, a resistência cabe ao individuo, ao cristão individual, ao membro do corpo de Cristo.
Para a grande maioria dos pastores, esta maneira de intrometer-se em assuntos públicos, em questões políticas, era uma coisa muito estranha e até ilícita, proibida (Lembro-me das acusações contra Niemõller, depois da guerra! E também da posição do Sínodo Riograndense, durante o movimento da "Legalidade" nos tempos de Brizola, em 1961, quando visitei o presidente Gottschald exigindo que a Igreja lançasse uma palavra de apoio).
A raiz histórica dessa forma de separar os dois "remos", tão característica do protestantismo alemão antes e depois de 1933 - aqui a Igreja, lá o Estado , encontra-se no passado do luteranismo alemão. Acontece que a ética luterana concede ao Estado uma relativa "Eigengesetzlichkeit", quer dizer, o Estado tem que seguir as suas próprias leis sui generis, por exemplo quanto ao 511 mandamento: "Não matarásf (Lembro-me que, quando guri, possuía um catecismo no qual se encontrava a nota de rodapé: "Não vale na guerra" ("Gilt im Kriege nicht!").
Da mesma maneira, teólogos luteranos, que de um lado rejeitaram o afastamento de seus colegas pastores de origem israelita do ministério eclesiástico, do outro lado, justificaram as medidas do Estado nazista contra os judeus como defesa legítima da "pureza da raça germânico-ariana". Diz o professor Künneth: "Deve-se conceder ao Estado nacional o direito de considerar a questão do judeu como problema da nova estruturação da sociedade. A Igreja deve devidamente apoiar tal conscientização com referência ao caráter da peculiaridade étnica alemã em conformidade com a doutrina sobre a ordem de Deus, criador da raça e da etnia" (Walter Künneth, "Das Judenproblem und die Kirche", 1933).
Deve-se considerar que, na hora do afastamento de pastores por "defeito de raça", havia na "Associação de Pastores" (Pfarrernotbund) 6 mil pastores contra a "lei ariana". Bonhoeffer, todavia, achou razão para criticar a atitude da "Igreja Confessante": Esta se preocupava mais com coisas internas e teológicas do que com questões existenciais e politicas urgentíssimas: a "lei ariana", o racismo que explodiu na "Kristallnacht", em 1938, a introdução da pérfida lei que obrigava cada cidadão judeu a visivelmente portar na roupa a estrela de Davi, sinal da classificação de inimigo do povo alemão". Naquela ocasião Bonhoeffer disse com plena razão: "Só aquele que grita em defesa dos judeus tem o direito de entoar cânticos gregorianos!"
A „outra Igreja" - Annemarie Rübens (1900 - 1991)
Annemarie nasceu na Argentina e veio como menina com seus pais comerciantes à Alemanha. Ela estudou Teologia com o famoso professor Karl Barth. Como pastora col. (assistente) ela trabalhou na cidade de Colônia. O pastor orientador dela, Georg Fritze,foi ideológicamente um antigo socialdemocráta. No ano de 1933, quando o Hitler assumiu o comando da nação, Annemarie entrou em conflito com a comunidade evangélica de Colônia e com a direção da Igreja de Renânia
O motivo do conflito foi um culto vespertino em abril de 1933. Durante este culto, numa prece incluida na liturgia ela pediu Deus „pela vida e pelo futuro de nosso povo, por sua liberdade e por sua paz, especialment por todos os membros de nosso povo que estão sendo injustamente perseguidos" - obviamente os judeus, cada vez mais oprimidos pelos novos donos do país.
Em seu sermão Annemarie Rübens falou sobre a fráse de Jesus „Eu vim para pôr fogo na terra, e como eu gostaria que já estivesse queimando!" (Luc. 12,49) Com admirável coragem a jovem pastora disse, entre outras observações:
„Não é assim que Deus criou os povos e raças com suas diferêncas ? ... Sem dúvida somos permitidos de amar nosso sangue, nossa raça, nosso povo ... Nem o ódio contra compatrícios dissidentes, nem o ódio contra compatrícios de sangue-diferente, nem o ódio contra povos estrangeiros corresponde ao comportamenmto cristão ... O saudável pastor Blumhardt disse uma vez: „Temos que ter precaução perante um entusiasmo nacionalista; não somos apenas alemães , somos filhos de Deus!" A onda de ódio contra os considadãos livres de qualquer entiusiasmo nacionalista aumenta cada dia. Igualmente aumenta a onda de ódio contra os nossos compatrícios judaicos ... Que é que fazemos? Que é que deveriamos fazer?"
A pastora corajosa logo recebia um aviso claro da parte de um membro do presbitério, Franz Hagemann, que era promotor público na Justiça de Colônia. Ele ameaçou: „Mais um sermão deste tipo e você vai ser presa instantâneamente!"
As consequencias do „comportamento escandaloso" da jovem pastora colaboradora não demorraram:
18.7.1933 demissão pelo presbiterio da Paróoquia
15.9.1933 demissão pela Diretoria Eclesiástica Regional
17.11,1933 anulação da candidatura para um pastorado na Provincia de Renânia
Um dia depois do sermão da Annemarie sobre o escándalo da perseguição dos judeus na Alemanha, o superintendente geral pastor-presidente) Otto Dibelius em Berlin (que há tempo havia-se declarado „anti-semita") fez uma palestra pela radio-transmissora-nacional (Kurzwellensender des Deutschen Rundfunks) concedida pelo ministro de propaganda do Reino, Joseph Goebbels, e elogiou o „Terceiro Reino" de Hitler como „vencedor do socialismo e bolchevismo", apel ando ao povo alemão de ter confiança no „Führer" (Líder) e em sua política da „Entjudung" - „desjudificação" da Alemanha. (O termo de „desjudificação" - expressão malíssima e feiíssima - lembra de algo como „fumigação ...)
Para Hitler e Goebbels não havia dúvida alguma de que „no assunto dos judeus" eles podiam contar com a Igreja. (H. Prien, Der Verrat der Evangelischen Kirche an den Juden - Das Beispiel Köln) Como disse o pastor presidentr Ernst Stoltenhoff, (Evang. Kirche im Rheinland): „A Igreja não vai proteger ninguem que no contexto da „questão dos judeus" toma parte em prol dos judeus de maneira indifferenciada."
Quando Hermann Goering, em setembro de 1935, na ocasião do „Nürnberger „Reichsparteitag der Freiheit" (o „congresso da liberdade", concentração anual maior do partido nazista) proclamou as leis raciais de Nueremberg („Nürnberger Rassengesetze") ele disse: „A partir de agora a água do batismal eclesiástico não vale mais. Agora o que conta é o ságue ariano!" - Da gilt nicht mehr kirchliches Taufwasser. Ab jetzt zählt arisches Blut.
„Não é mais possível o judeu transformar-se em alemão pelo batismo. Por isso o judeu não tem mais lugar no meio da vida comunitária da Igreja Evangélica Alemã", disse o pastor Karl Köhler de Colônia.
Agrega-se desta maneira à traição dos judeus pela igreja a traição do sacramento do batismo pela Igreja Evangélica - „zum verrat der Kirche an den Juden gesellt sich von nun an der Verrat der evangelischen Kirche am Sakrament der Taufe." (Prien)
Annemarie Rübens escolheu o camingo da emigração, num primeiro passo rumo à Holânda, mais tarde, em 1936, depois do falecimento do irmão, ela viajou para Uruguay, onde, na Colônia Valdense, ela montou um asilo para crianças de antifacistas exilados da Europa, mais tarde inclusive para os filhos de presos políticos de Uruguay mesmo.
Falando da „outra Igreja", a gente deve lembrar também do „Propst" Heinrich Grüber, que inclusive foi preso político no campo de concentração de Dachau, porque repetidamente havia protestado.contra as deportações de judeus. Grüber foi encarregado como responsável do programa eclesiástico de assistência aos judeus batizados e consequentemente membros de comunidades evangélicas, que - devido às leis arianas de Nueremberg - tinham que ser considerados e tratados como judeus (como se pode ler num decreto na época emitido pela direção da Igreja Evangélica).
A assim chamada „Hilfsstelle Grüber" ou o „Büro Pfarrer Grüber" logo instalou dependências nas diferentes provincias, e tudo isso com o apoio formal da „Geheime Staatspolizei" - Gestapo - (o SNI nazista). Dessa ,maneira era possível, que ca. de 1.700 pessoas de descendencia judáica conseguiram de emigrar legalmente e de escapar do holocaust, da máquina de exterminação instalada pela SS poucos anos depois. Não demorrou muito até que a Gestapo fechou o „Büro Pfarrer Grüber" e não deu mais saída para os judeus que quase todos foram assassinados. Vergonha permanente para cada cidadão dessa nação
Conforme uma estatística „Juden in Deutschland" - Judeus na Alemanhs - publicada num prestigioso periódico protestante (Christl. Welt Juni 1932) era isto o respectivo quadro:
500.000 Judeus sem qualquer mistura e de religião mosáica
50.000 Judeus sem mistura e de religião „não-mosáica"
200.000 „Semijudeus" (mestiços „de primeiro gráu")
100.000 „mestiços judaicos-arianos" 2. gráu („Quartojudeus")
850.000 em total
CONCLUSÃO
Quando, em 1953, no lugar onde funcionou o horrível campo de concentração de Flossenbürg, inaugurou-se uma placa em memória de Bonhoeffer, que foi enforcado lá no dia 9 de abril de 1945, com 39 anos, o bispo da Igreja Evangélica Luterana de Bavária, Hans Meiser, não participou, alegando que Bonhoeffer não teria sido um mártir cristão, mas apenas um mártir político.
Venho de Nürnberg, cidade situada ao norte da Baviera, duas horas distante de Flossenbürg. Visitei o ex-campo de concentração, com vergonha e tristeza. Ocorre, porém, que não me incomodou a questão sofisticada, se Dietrich Bonhoeffer era um mártir cristão ou apenas um mártir político. O que, de fato, profundamente me perturbou, foram as questões:
• Como é possível que um ser humano possa cometer tamanhos erros e crimes como aqueles perpetuados no "Terceiro Reich"?
• Existe a possibilidade de que tais crimes se repitam - em qualquer lugar do mundo?
• Como foi possível que o povo da Reforma (e da Contra-Reforma) se deixou atrair por uma ideologia monstruosa como a nazista?
• Como se explica que os cristãos na Alemanha tenham colaborado com este regime ou pelo menos tenham permanecido calados?
• Pode-se desculpar a atitude dos cristãos com a exigência ou necessidade de "cumprir ordens"?
REFERÊNCIAS
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BEUYS, Barbara. Verge& uns nicht, Mensehen im Widerstand 1933-1945. Hamburg, 1990.
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DIE CHRISTLICHE Welt. Protestantische Halbmonatsschrift für Gebildete alier Stiinde. Leopold Klotz Verlag Gotha (diverse Nummern aus den Jahrg, 1932/33).
HAFFNER, Sebastian. Von Bismarck zu Hitler, Em Rückblick. München, 1987.
HERMAN, Stewart W. Eure Seelen wolien wir. Kirche im Untergrund. München-Berlin, 1951.
HEUSS, Theodor. Friedrich Naumann. Der Mann, das Werk, die Zeit. Stuttgart-Berlin, 1937.
HOFER, Walther. Der Nationalsozialismus. Dokumente 1933-1945. Fischer Bücherei, 1960.
KÜNNETH, Walter. Das Judenproblem und die Kirche. 2. Aufi. Sept. 1933.
KUPISCH, Karl. Zwischen Idealismus und Massendemokratie. Eine Geschichte der evangelischen Kirche in Deutschland von 1815-1945. Berlin, 2. Aufi., 1959.
MANN Golo. Deutsche Geschichte, 1919-1945. Frankfurt, 1961. NOTHMANN, Walter. Der Irrweg der evangelischen Kirche. Berlin, 1930.
RATHJE, Johannes. Die Welt des Freien Protestantismus. Em Beitrag zur deutsch-evangelischen Geistesgeschichte, dargestellt an Leben und Werk von Martin Rade. Stuttgart, 1952.
SCHREY, Heinz-Horst. Dreissig Jahre Kirche und Staat in Deutschland, Die
Mitarbeit, Evangelische Monatshefte zur Gesellschaftspolitik, 12. Jahrg. Juli/August 1963.
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